Cartas da Mãe – Henfil

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Para quem conhece minimamente a história social brasileira o nome Henfil deve soar familiar, Henrique de Souza Filho, cartunista, ativista e cronista de humor, deixou sua marca de diversas maneiras ao longo de sua luta contra o regime militar, nosso querido mineiro tinha uma maneira muito própria de expressar os pensamentos que abrigavam os confins de sua cachola, e uma dessas maneiras esta no livro compilado de sua coluna semanal “Cartas da Mãe”.

O tom realístico da obra nos remete aos períodos ditatoriais, as personagens são em geral entidades reais, e a narrativa apesar do tom descontraído e intimista é uma verdadeira aula de história, ao ler as cartas de Henfil sinto-me parte da família dele, divido um pouco da dor e da fúria dele, vivo um pouco de sua luta, ele imediatamente torna seu leito empático a suas causas, não pelo argumento impecável e pelo pensamento revolucionário, mas sim pela solidariedade e amizade que o autor demonstra em cada linha, um livro que te faz rir de alegria e às vezes de desespero, uma leitura que recomendo a todo o Brasileiro seja esse um orgulhoso amante da pátria ou aquele que deseja ser uma pária desta, mas principalmente para aqueles que nunca viveram o regime militar.
O livro publicado na década de 80 pela editora Codecri é um apanhado da coluna que foi publicada pela revista ISTO É, coluna que levava o nome “cartas da mãe” onde o nosso querido ativista das terras gerais se propunha a criticar de maneira expressiva as atitudes do governo além de cobrar uma posição das grandes personalidades da época, Henfil com um tom despreocupado e com um bom toque de humor escreve em suas cartas criticas a censura ao pensamento oprimido do povo brasileiro, a falta de solidariedade e ao regime militar como um todo. Henfil, Sabe que às vezes me bate aquele aperto quando te leio meu querido mineiro, cartunista e ativista, sinto aquele reboliço no peito quando vejo nas tuas palavras aquela dor que foi passar por tudo que foi nosso país, Henrique, Henriquinho, você sempre vai ser meu amigo e correspondente mais querido. Conheci-te por um acaso, vendo as cartas que tu escrevias a Dona Maria, figura de respeito, tua mãe, que acho que como eu tinha aquele misto de orgulho e medo quando você falava do governo da ditadura, das injustiças e de todo o caos que nosso Brasil passou, foi quando li as “Cartas da Mãe”, que pude ler teu coração escrito no papel, e eu dava risada, poxa como eu ria, das suas sátiras, mesmo hoje quando leio tuas cartas me surge esse sorriso no rosto, coisa boba né?
Henrique, eu não queria te conta as coisas assim, mas acho que você tem que saber, nosso povo anda meio fraco da cachola, muita coisa mudou, o PT que você fundou assumiu nosso governo, e foi uma festança sabe? O povão tudo aplaudiu nosso companheiro lula, e pediu Bis com dona Dilma, só que a tristeza é que se você estivesse aqui nos dias de hoje estaria escrevendo sobre eles como fez com o Collor e com os outros picaretas, a robalhera foi tanta e de tanta gente que tem povo pedindo pra voltar à ditadura! É de encher os olhos de lágrimas, e mesmo o futebol, que eu sei que você é fã, ta meio borocoxo, perdemos a ultima copa, que foi aqui e perdemos de goleada 7x1, mas a goleada mesmo foi da FIFA que fez mágica e sumiu com o dinheiro todo, nosso povo ta parecendo aquela musica do Chico sabe? “Meu caro amigo”, a coisa aqui ta preta, é pirueta pra cavalo ganha pão... Mas acho que quando te li lembrei um pouco desse sentimento de esperança, você me faz um bem danado, queria te abraçar e te dizer que a gente ta na luta, e que você que me deu força pra luta, pois não existe maior guerreiro que você, tinha aquela doença do sangue a tal da Hemofilia, e mesmo assim deu seu jeitinho pra falar de coisas sérias com alegria, até quando a AIDS te pego pelas pernas você ainda mostrou teu sorriso, me dá orgulho saber que sou brasileiro como você.
Eu vou ficando por aqui, a vista ta embaçada e mesmo com a modernidade do computador, ainda num inventamos nada contra essa puta dor que vem no peito quando sentimos falta de alguém querido, mas fico com essa sensação boa de leveza em saber que você deixou teu legado, que tantos outros ainda te levam no coração e alguns até na ponta do lápis, torça pela gente, torça pra que tudo que você fez vingue mais, pra que o povo aqui ainda te leia e descubra o que é por no papel esse calorzinho que acende uma chama na alma. Um forte abraço.
A benção do teu resenhista! Thiago Scornaienchi

Escritor convidado: Thiago Scornaienchi : Ex-livreiro, escritor publicado pela revista Kyrial e Arte ATACA! Louco da cachola, questionador convicto, amante da melancolia, barbado e esfomeado.


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