𝐸 𝑠𝑒 𝑣𝑜𝑐𝑒̂ 𝑎𝑐𝑎𝑏𝑎𝑠𝑠𝑒 𝑓𝑒𝑟𝑖𝑛𝑑𝑜 𝑞𝑢𝑒𝑚 𝑒𝑠𝑡𝑎́ 𝑑𝑒𝑠𝑡𝑖𝑛𝑎𝑑𝑜 𝑎 𝑎𝑚𝑎𝑟?
Sinopse: O primeiro dos oito volumes da série Iriduan Test Subjects promete nos levar a uma viagem entre as estrelas, onde mistérios e descobertas podem mudar tudo aquilo que acreditamos saber sobre o universo. E talvez o maior deles seja justamente uma pergunta que há muito tempo intriga a humanidade. Afinal, estamos realmente sozinhos?
Claire está prestes a descobrir a resposta da pior maneira possível.
Tudo começa quando ela aceita acompanhar sua melhor amiga, Ava, uma entusiasta de teorias extraterrestres, em um acampamento no deserto, numa região conhecida por relatos de avistamentos. Claire não acredita muito nessas histórias, mas sua descrença desaparece quando desperta em uma cela, cercada por seres que definitivamente não são humanos e parecem desconhecer completamente o significado da palavra empatia.
Sim, Claire foi abduzida. E, como se isso não fosse assustador o suficiente, logo descobre que não passa de uma cobaia em um laboratório de engenharia genética. Curiosamente, porém, ela sequer é o verdadeiro foco dos experimentos. Esse papel pertence a Thrax, uma criatura primitiva, mortal e guiada pelos instintos mais básicos, que foi geneticamente modificada para se tornar um supersoldado.
Thrax representa tudo aquilo de que Claire deveria manter distância. O problema é que existe uma atração quase irresistível entre os dois, algo que nenhum deles consegue compreender completamente.
E nada disso é coincidência.
Os responsáveis pelos experimentos escolheram Claire justamente por sua compatibilidade com Thrax, esperando que os dois se reproduzam e deem origem a uma nova espécie.
Agora, aprisionada em um lugar desconhecido e à mercê de criaturas hostis, Claire precisa encontrar uma maneira de escapar antes que seja tarde demais. E sua melhor chance de liberdade pode estar justamente naquele que mais deveria temer.
| Às vezes, monstros eram simplesmente mais divertidos. |
Percepções: O início de The Scorpion's Mate foi, talvez, a parte mais difícil da leitura para mim. Uma boa história depende muito da conexão que conseguimos estabelecer com seus personagens e, logo nas primeiras páginas, senti que a autora estava se esforçando demais para dar à Claire aquele ar de “olhem como sou diferente das outras”. Isso, somado a algumas emoções conflitantes e reações que me pareceram contraditórias, acabou me deixando com a impressão de que a escrita não seria das melhores.
Ainda assim, resolvi dar uma chance ao livro. Confesso, porém, que segui em frente já carregando uma certa má vontade, daquelas que surgem quando uma leitura começa com o pé esquerdo e precisa se esforçar um pouquinho mais para conquistar a nossa simpatia.
Como boa parte da história é narrada pelo ponto de vista de Claire, eu precisava fazer as pazes com ela, e rápido. Felizmente, isso se mostrou bem menos difícil do que imaginei. Seja pela amizade com Ava, pela personalidade independente ou até por aquele jeito um tanto solitário, Claire foi conquistando minha simpatia aos poucos. Mesmo soltando algumas frases meio bobinhas aqui e ali, ela não toma aquelas decisões absurdas que nos fazem querer entrar no livro só para sacudir a personagem. O que, convenhamos, já conta como um belo ponto positivo.
Mas é principalmente a partir de sua abdução que Claire consegue despertar nossa empatia. Tudo o que ela enfrenta nos deixa genuinamente preocupados com seu bem-estar, especialmente porque os seres responsáveis por seu sequestro são claramente hostis à raça humana, embora sejam, de alguma forma, uma evolução dela.
E essa hostilidade foi um dos aspectos que mais me chamaram a atenção. Em muitos romances com alienígenas, os humanos costumam ser tratados como uma descoberta extraordinária, especialmente quando falamos de mundos onde há escassez de fêmeas. É uma premissa tão recorrente que talvez já possa ser considerada quase um subgênero dentro dessas histórias. Por isso, achei interessante encontrar uma abordagem diferente. Aqui, a humana não é exatamente o grande achado, mas algo secundário, um atrativo para a verdadeira cobaia. Como seus feromônios são compatíveis com os dela, Claire acaba sendo escolhida para gerar seus descendentes.
E é aí que entra Thrax.
Primitivo, mortal e guiado pelos instintos mais básicos, Thrax é uma criatura que tem plena consciência de que foi transformada em algo diferente pelos seres que chama de “carnes macias”. Vindo de um mundo com recursos escassos, sua espécie é conhecida pelo comportamento arisco, pela disputa territorial que leva à morte do próprio progenitor e pela capacidade de se reproduzir sem a necessidade de companheiros. Tudo o que ele conhece está diretamente ligado à sobrevivência e à satisfação das próprias necessidades.
| Você não vai gostar. Você não vai mais gostar de mim. |
Entretanto, os procedimentos genéticos que lhe deram um novo corpo também despertaram uma consciência capaz de fazê-lo questionar coisas que antes sequer fariam sentido. Entre elas, o desejo que sente pela humana.
E é justamente quando acompanhamos a história pelo ponto de vista de Thrax que, para mim, tudo se torna ainda mais interessante.
Uma das coisas que mais gostei foi a maneira como a autora construiu essa transformação sem cair na tentação de humanizá-lo completamente. Thrax precisa lidar com as diferenças que a convivência com Claire exige, aprender a reconhecer sentimentos que desconhece e compreender comportamentos que não fazem parte de sua natureza. Algumas dessas diferenças ele simplesmente aceita, mesmo sem entendê-las muito bem. Outras, tenta modificar em benefício dos sentimentos que começa a desenvolver.
Mas, apesar de tudo isso, ele continua sendo uma criatura essencialmente instintiva. E eu amei que a autora tenha respeitado essa característica.
| Claire está com raiva. Mas por quê? Você não quis comer minha presa, e eu não estou ameaçando o seu território. |
Thrax não é exatamente alguém dado a grandes declarações românticas ou com quem Claire possa passar horas trocando amenidades. Por isso, a relação entre os dois caminha por meio dos feromônios, que não apenas despertam o desejo dele, mas também o de Gracie.
Essa particularidade recebe uma explicação mais adiante, e confesso que gostei bastante da ousadia da autora ao explorar essa possibilidade. Ao mesmo tempo, fiquei lamentando que ela não tivesse aproveitado melhor a situação, porque havia ali material suficiente para render muitas outras páginas. Daria um excelente dramalhão mexicano, daqueles cheios de complicações e sentimentos conflitantes. Mas talvez isso seja apenas meu lado noveleiro falando mais alto.
De todo modo, como vocês já devem imaginar, uma história construída sobre pouca comunicação verbal e muitos feromônios naturalmente acaba rendendo uma quantidade considerável de pensamentos voltados ao desejo, além de algumas cenas hot. E foi justamente nesse aspecto que acabei me decepcionando um bocado, embora reconheça que isso tenha muito mais a ver com minhas preferências pessoais do que necessariamente com a maneira como a autora conduziu essas cenas.
Ah, e ainda temos a questão da alimentação de Claire, que, bem... digamos que assume contornos bastante peculiares por aqui. Mas essa e algumas outras surpresas prefiro deixar para vocês descobrirem durante a leitura. Afinal, parte da diversão está justamente em se deparar com certas situações sem fazer a menor ideia do que esperar.
— Você sente falta do tempo antes de ser transformado?
— Não. Você não estava lá.
Quando escolhi essa leitura, confesso que não estava esperando muita coisa. E, justamente por isso, também não comecei com grandes exigências. Ainda assim, houve um detalhe na trama que me incomodou e que, por mais que eu tentasse relevar, não conseguiu passar despercebido.
Como é possível que um laboratório de engenharia genética, responsável por realizar experimentos capazes de transformar espécies extremamente perigosas, não tenha o mínimo de segurança em suas instalações ou sequer consiga rastrear suas próprias cobaias? E o pior é que isso acontece mesmo depois de alguns incidentes. Sei que certas conveniências são necessárias para fazer uma história avançar, mas aqui senti que a autora acabou sacrificando um pouco da credibilidade da trama para facilitar os acontecimentos.
Em compensação, o final ganha um ritmo mais acelerado e eletrizante, trazendo o tão aguardado confronto e deixando um gancho para o segundo livro. Se vou continuar a série, porém, ainda não sei. Não que a história seja ruim, longe disso. Ela é razoável, sabe? Tem seus momentos interessantes, algumas ideias que me agradaram e personagens que conseguiram conquistar minha simpatia. Mas também não foi uma daquelas leituras que me deixaram desesperada para descobrir o que acontece depois.
E, bem, com tantos livros que ainda quero conhecer e uma lista de leituras que parece crescer a cada vez que olho para ela, fica difícil encontrar espaço para uma continuação que não despertou tanta curiosidade assim.
Talvez eu volte a esse universo em algum momento mais despretensioso, quando estiver procurando apenas uma história diferente para passar o tempo, sem grandes expectativas. Afinal, às vezes é justamente assim que algumas leituras acabam nos surpreendendo.
Disponível em inglês.
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