Parte do seu mundo || Abby Jimenez
O livro traz aquele conforto de filme de sessão da tarde. Tem cidade pequena, personagens excêntricos, uma comunidade que parece uma grande família, romance, situações engraçadas e até uma dose de magia. É o tipo de história que, mesmo quando aborda assuntos mais pesados, consegue manter aquela sensação gostosa de aconchego.
Aqui conhecemos Alexis Montgomery, ou Ali, uma médica socorrista de 37 anos que vem de uma família rica e tradicional de cirurgiões. Ela cresceu cercada de expectativas e de um legado familiar enorme. Apesar de amar a medicina e gostar de trabalhar na emergência, existe uma pressão constante para que siga o caminho que a família considera ideal e dê continuidade ao legado dos Montgomery, inclusive assumindo futuramente o hospital da família.
Ela também acabou de sair de um relacionamento complicado com seu ex-companheiro, Neil, que continua presente de uma forma que torna muito mais difícil simplesmente seguir em frente. E é justamente nesse momento que Ali acaba indo parar em Wakan, uma cidadezinha que está completamente fora da realidade que ela conhece.
A chegada já começa de um jeito um pouco caótico: tentando desviar de um guaxinim, ela acaba com o carro preso em uma vala. É aí que aparece Daniel Grant, um homem dez anos mais novo, que a ajuda sem aceitar dinheiro em troca.
Daniel vive em Wakan, onde todo mundo parece conhecer a vida de todo mundo. Ele é carpinteiro, administra a pousada da família e está tentando manter uma propriedade que pertence aos Grant há gerações. É gentil, divertido, leva uma rotina muito diferente da dela e está profundamente ligado à comunidade. Acho que é justamente esse jeito mais leve e descomplicado que chama tanto a atenção de Ali.
O contraste entre os dois vai muito além de cidade grande e cidade pequena. Ela está acostumada a hospitais renomados, dinheiro e um sobrenome carregado de expectativas. Ele, por outro lado, parece muito mais seguro sobre o lugar onde quer estar e sobre as escolhas que fez para si. E acho que é justamente aí que o título ganha uma graça especial: Daniel está completamente fora do “mundo” que Alexis conhece.
Os dois acabam se encontrando novamente em um bar, e a partir daí a aproximação acontece de uma forma bem rápida. Há uma aposta feita pelos amigos dele, Ali decide entrar na brincadeira e os dois passam a noite juntos. Na manhã seguinte, ela vai embora sem se despedir, convencida de que aquilo foi apenas um encontro improvável que não deveria significar muita coisa.
Só depois ela descobre que Daniel é justamente o dono da pousada onde vai ficar hospedada. E é durante essa estadia que os dois começam, de fato, a conhecer melhor um ao outro e a perceber o quanto suas realidades são diferentes.
A relação é narrada pelos dois pontos de vista, e eu gostei bastante disso porque conseguimos entender como cada um enxerga essa conexão tão improvável.
Preciso dizer, porém, que a construção do romance não foi minha parte favorita. Eu gosto de relacionamentos que vão se desenvolvendo mais devagar, com aquela sensação de acompanhar os personagens se conhecendo e se apaixonando aos poucos. Aqui, a atração acontece muito rápido e, para mim, tudo avançou um pouco mais depressa do que eu gostaria.
Uma coisa que me chamou atenção foi a diferença de idade. Ali é dez anos mais velha que Daniel, e o livro trabalha bastante com o fato de que esse tipo de relação ainda é visto de maneira diferente quando a mulher é a mais velha. É interessante acompanhar como os dois lidam com os julgamentos e também com as inseguranças que aparecem por causa disso.
Para mim, o ponto forte da narrativa está justamente em tudo que existe por trás da história de amor. Alexis cresceu acreditando que havia um caminho muito específico esperando por ela. A família quer que dê continuidade ao legado dos Montgomery e assuma cada vez mais responsabilidades no hospital, quando, na verdade, o que ela gosta é de estar na emergência e ajudar as pessoas. E isso foi uma das coisas que mais me fez pensar durante a leitura: até que ponto estamos escolhendo por nós mesmos ou apenas seguindo aquilo que esperam de nós?
Confesso que, em alguns momentos, Ali me estressou e algumas decisões dela me incomodaram. Mas, ao mesmo tempo, acho impossível olhar para essas atitudes sem considerar tudo que ela viveu. Ela foi criada dentro dessa dinâmica familiar e passou por uma relação em que sua autoestima foi constantemente diminuída. Além disso, a própria família continua pressionando para que ela mantenha Neil por perto. Então, embora eu quisesse muito que ela se posicionasse mais, também consegui entender por que esse processo não seria tão simples.
E acho que é justamente isso que torna o crescimento dela tão interessante. Aos poucos, ela começa a questionar aquilo que sempre aceitou, a tomar decisões por si mesma e a perceber que se colocar em primeiro lugar não é egoísmo. Gostei muito da forma como essa evolução foi construída porque não parece uma mudança repentina. É um processo, e isso torna tudo mais convincente.
A amizade também tem um papel enorme nisso. Para quem leu Para Sempre Seu, é muito bom reencontrar a Briana. Ela é uma amiga de verdade para Ali e, sem entregar demais, consegue ajudá-la a enxergar o próprio valor e a perceber que certas decisões só poderiam partir dela. Para mim, essa amizade foi um dos pontos mais bonitos do livro.
Também gostei bastante dos personagens secundários e da própria dinâmica de Wakan. Aos poucos, Ali vai sendo acolhida pelos moradores e criando laços com aquelas pessoas, e é muito gostoso acompanhar essa sensação de pertencimento crescendo. Liz, Doug, os animais e todas aquelas pequenas situações absurdas dão uma personalidade própria ao lugar. A cabra de pijama, inclusive, é exatamente aquele tipo de detalhe aleatório que parece ter saído de um clichê de comédia romântica e, estranhamente, funciona muito bem.
Tem ainda um elemento de magia envolvendo Wakan que eu achei muito fofo. A ideia de a cidade parecer ter uma espécie de vontade própria combina demais com essa atmosfera de destino e com o aconchego da história. Gostei muito desse toque, só queria que ele tivesse sido mais desenvolvido, porque em alguns momentos ficou um pouco vago.
Também senti que, quando a trama se aproxima da resolução, algumas coisas acontecem rápido demais. Gostei de onde os personagens chegam, mas senti falta de mais diálogos entre os dois nessa parte. Acho que algumas conversas a mais poderiam ter dado mais peso ao encerramento.
No fim, Parte do Seu Mundo foi uma leitura gostosa e interessante, mas não entrou para os meus favoritos da Abby. O romance, que normalmente é o que mais me
prende nos livros dela, não foi o que mais me conquistou aqui. Para mim, a história ganha muito mais força quando fala sobre pertencimento, expectativas, família, relacionamentos abusivos e sobre ter coragem para construir uma vida que realmente faça sentido para você.
E talvez esse tenha sido o ponto que mais ficou comigo depois de terminar. Mais do que a história de amor, gostei de acompanhar uma mulher percebendo que não precisa continuar vivendo de acordo com aquilo que esperam dela. Inclusive, foi uma leitura que me ajudou a sair de uma ressaca literária, então, para aquele momento, cumpriu exatamente o papel que eu precisava.
Porque, no final, a vida que esperam que você viva nem sempre é a vida que você precisa escolher.



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