Obsessão || 2026

Existe algo mais cruel do que estar consciente da própria existência e perceber que ninguém ao seu redor se importa com o fato de você estar perdendo o direito de vivê-la?


Dirigido por Curry Barker, Obsessão nos mostra como um simples desejo pode ser capaz de destruir vidas. E não, não estou falando de um desejo perverso ou maligno, mas de algo que, à primeira vista, parece completamente inofensivo e até mesmo romântico.

Aqui, acompanhamos Bear, um jovem apaixonado há sete anos por sua amiga Nikki, mas que nunca encontrou coragem para admitir o que sente por medo de perdê-la. Em uma noite, depois de mais uma tentativa frustrada de se declarar, ele quebra um misterioso Salgueiro do Desejo e faz um pedido que muda tudo.

Michael Johnston dá vida a Bear 

Eu adoro quando um filme brinca com a nossa percepção e nos faz questionar aquilo que acreditávamos saber sobre seus personagens. Quando alguém que parecia ser uma coisa começa, pouco a pouco, a revelar uma face bem diferente. E, bem, isso se aplica perfeitamente aqui.

No início, Bear parece ser aquele típico cara legal, solitário e sentimental. Ele vive sozinho desde a morte da avó, ama a amiga em silêncio há anos e acaba de perder sua gata de estimação. Tudo em sua vida parece dar errado ou surgir como um novo obstáculo entre ele e Nikki. Às vezes são seus amigos, em outras é ele mesmo. Naturalmente, nossa empatia entra em ação e começamos a sentir pena dele.

Pelo menos no início.

Inde Navarrette na pele de Nikki

Logo depois que Bear faz o desejo, já percebemos uma mudança no comportamento de Nikki. É como se alguma coisa tivesse se infiltrado por sua pele e agora estivesse tentando acessar suas lembranças, entender seus sentimentos e aprender a ser aquela pessoa.

Enquanto Bear passa boa parte do filme revelando quem realmente é, Nikki segue por um caminho completamente oposto. Quanto mais a história avança, menos controle ela parece ter sobre a própria vida, suas escolhas e até mesmo sobre quem ela é. E acredito que a atuação de Inde Navarrette seja fundamental para transmitir essa sensação, porque o medo por Nikki não aparece apenas nos momentos em que estamos diante de algo claramente assustador. Ele se manifesta nos pequenos detalhes, na maneira como seu olhar muda, na confusão diante de situações que ela não consegue compreender e, principalmente, na percepção de que existe alguma coisa acontecendo dentro dela que simplesmente não pode impedir. Há uma cena em especial que transmite muito bem essa sensação. Nikki parece perdida e confusa enquanto, ao mesmo tempo, temos a impressão de que sua verdadeira essência está lentamente perdendo o domínio sobre o próprio corpo. Essa ideia se torna ainda mais evidente em suas aparições posteriores. Em alguns momentos, vemos praticamente apenas seu vulto, como se ela estivesse sendo tomada por alguma coisa que pertence às sombras.

É angustiante acompanhar essa transformação, especialmente porque, aos poucos, percebemos que Nikki está presa em uma realidade que nunca escolheu e sobre a qual já não possui qualquer controle. E talvez seja justamente isso que torne sua situação tão perturbadora. 

Afinal, por mais que Obsessão seja um filme de terror sobrenatural, é impossível não enxergar nessa história algo muito mais próximo da nossa realidade. O que acontece com Nikki também pode ser interpretado como uma representação bastante incômoda de um relacionamento tóxico, no qual uma pessoa acredita ter direitos sobre a outra simplesmente porque passou tempo demais alimentando uma fantasia.

Bear passou anos idealizando Nikki, construindo em sua cabeça uma versão dela que correspondia aos seus sentimentos e desejos. Porém, quando finalmente consegue aquilo que tanto queria, percebemos que ele não está realmente interessado em quem Nikki é. Seus sentimentos, suas vontades e todas as particularidades que fazem dela uma pessoa deixam de ter importância. Ele simplesmente aceita aquela nova Nikki que lhe é apresentada, porque, no fundo, o que realmente importa é finalmente poder chamá-la de sua.

E existe algo profundamente assustador nessa percepção. Nikki não está apenas diante de alguém que desrespeita seus limites ou ignora seus sentimentos. Ela está presa a alguém que literalmente construiu uma realidade na qual suas escolhas já não possuem qualquer valor. Alguém que prefere destruir a pessoa que diz amar a aceitar que talvez nunca seja correspondido.

O que torna tudo ainda mais doloroso é perceber que estamos falando de alguém que Nikki considerava praticamente um irmão. Uma pessoa em quem confiava, que fazia parte de sua vida e que, supostamente, deveria se importar com seu bem-estar. Mas, conforme a verdadeira natureza de Bear vem à tona, fica evidente que ele está disposto a sacrificá-la, assim como qualquer outra pessoa, para conseguir aquilo que deseja. E o mais cruel é saber que Nikki continua ali, consciente do que está acontecendo, percebendo o horror da própria situação e, ainda assim, completamente indefesa.

Como se isso já não fosse suficientemente angustiante, as pessoas ao redor também contribuem para essa sensação de desamparo. Os personagens secundários percebem que existe alguma coisa errada, estranham as mudanças no comportamento de Nikki e, em determinados momentos, parecem até desconfiar das atitudes de Bear. Entretanto, ninguém demonstra estar realmente disposto a fazer alguma coisa.

E isso me incomodou bastante durante o filme, porque Nikki está cercada de pessoas, mas permanece terrivelmente sozinha. Todos estão próximos o suficiente para perceber que algo não está certo, porém ninguém parece disposto a abrir mão da própria segurança, do conforto ou dos interesses pessoais para ajudá-la. É uma solidão que se torna ainda mais cruel justamente por acontecer em meio a tantas pessoas.

Por isso, considero a atuação de Inde Navarrette um dos grandes pontos altos do longa. Existe uma diferença enorme entre interpretar alguém que está com medo e transmitir a sensação de uma pessoa que já não possui domínio sobre si mesma. E sinto que a atriz consegue representar muito bem essa transição. Seus sorrisos frios, acompanhados de um olhar tomado pelo pânico, são especialmente perturbadores. É como se estivéssemos diante de duas realidades completamente diferentes ocupando o mesmo corpo, enquanto a verdadeira Nikki permanece ali, tentando desesperadamente encontrar uma maneira de recuperar a própria vida.

E confesso que essa sensação de impotência foi uma das coisas que mais me angustiaram ao longo da história.

Quanto a Bear, o filme começa o apresentando como um rapaz solitário, alguém que deseja ser amado e que aparentemente sofre por não ter seus sentimentos correspondidos. É fácil, em um primeiro momento, compreender sua tristeza e até sentir alguma empatia por ele. Entretanto, conforme a narrativa avança, percebemos como essa solidão se transforma em uma justificativa para controlar outra pessoa, como se todo o sofrimento que ele experimentou lhe desse o direito de decidir o destino de Nikki.

Ele vai se revelando aos poucos um personagem cada vez mais difícil de gostar. Sua aparente fragilidade começa a dar espaço ao egoísmo e à covardia, características que se tornam ainda mais evidentes quando ele percebe as consequências do desejo que fez. No começo, ele realmente não entende a gravidade da situação e está tão confuso com as novas atitudes de Nikki quanto qualquer pessoa estaria em seu lugar. A diferença é que, em vez de questionar profundamente o que está acontecendo, ele simplesmente aceita as mudanças. Enquanto todos ao redor começam a estranhar cada vez mais aquela nova versão de Nikki, Bear parece disposto a ignorar os sinais.

E quando finalmente percebe que seu desejo pode ter transformado Nikki em outra coisa, isso não parece incomodá-lo tanto quanto deveria. Tirando, é claro, algumas de suas esquisitices. Afinal, pela primeira vez ele está recebendo exatamente aquilo que sempre quis.

Talvez seja justamente aí que Bear se torne tão desagradável.

Grande parte do asco que passamos a sentir pelo personagem também vem da ótima atuação de Michael Johnston. Ele consegue transformar aquela figura inicialmente frágil e digna de pena em alguém capaz de conquistar toda a nossa antipatia. E isso funciona muito bem porque a mudança não acontece de uma vez. Aos poucos, vamos percebendo quem Bear realmente é quando finalmente recebe a oportunidade de ter aquilo que sempre desejou.

E quando aqueles que estão ao redor preferem preservar os próprios interesses em vez de enfrentar essa situação, o terror sobrenatural acaba ganhando uma dimensão ainda mais desconfortável. Porque, por mais absurda que seja a realidade apresentada pelo filme, existe algo profundamente humano por trás de tudo isso. A facilidade com que os sentimentos, os limites e até mesmo a vontade de alguém podem ser ignorados quando outras pessoas acreditam ter alguma coisa a ganhar.

Quanto a direção, gostei muito da maneira como Curry Barker constrói esse clima perturbador ao misturar músicas suaves e situações aparentemente românticas com a presença quase imperceptível de Nikki escondida na escuridão. Existe algo profundamente errado acontecendo diante dos nossos olhos, mesmo quando a cena tenta parecer delicada ou apaixonante.

Outro aspecto que não passou batido é o fato de nunca sabermos exatamente de onde vem o poder sobrenatural do Salgueiro do Desejo. Seria magia, hipnose, possessão ou alguma outra coisa? O filme não oferece uma resposta definitiva. Sabemos apenas que não se trata de algo simples e, principalmente, que existe alguma energia profundamente ruim por trás daquilo.

Essa sensação aparece principalmente através de Nikki. Alguns de seus movimentos são estranhos demais, enquanto em outros momentos é justamente a ausência deles que causa desconforto. O diretor também brinca com elementos que remetem a grandes filmes de terror, como O Exorcista e Corra, sem abandonar a identidade da própria história.

Seja lá o que estiver de posse do corpo de Nikki, é algo verdadeiramente bizarro. Uma presença que começa quase silenciosa, escondida em pequenos gestos, olhares e movimentos estranhos, mas que vai se tornando cada vez mais assustadora à medida que o longa avança.

O desfecho de Obsessão nos deixa com aquele gostinho de caos, especialmente porque abre espaço para diferentes possibilidades e interpretações. Ficamos na ponta da cadeira enquanto o diretor aumenta gradualmente a tensão, conduzindo a trama por caminhos cada vez mais perturbadores e nos fazendo questionar quem, afinal, pagará o preço por tudo o que aconteceu e qual será o destino de Nikki.

E, bem, dizem que o demônio mora nos detalhes, não é mesmo? Aqui, essa expressão faz todo o sentido! Basta um pequeno momento de desatenção para que algumas peças desse quebra-cabeça passem despercebidas. Afinal, o filme não entrega todas as respostas de maneira mastigada, muito menos coloca um personagem para explicar tudo o que aconteceu. Por isso, se você terminar com aquela sensação de confusão, talvez valha a pena voltar algumas cenas e prestar atenção aos detalhes.

No fim das contas, Obsessão é uma ótima escolha para quem procura uma história desconfortável e perturbadora, daquelas que continuam rondando nossos pensamentos mesmo depois que os créditos sobem. Uma narrativa que nos faz refletir sobre como até os sentimentos mais bonitos e as melhores intenções podem se transformar em algo catastrófico. E, acima de tudo, sobre o quanto pode ser perigoso alguém que simplesmente não consegue lidar com um não como resposta.

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