Feridos em Nome de Deus || Marília de Camargo César

 



Darth Nyx de volta e, agora, com uma leitura que é bem interessante! Fugindo dos romances, das fantasias e dos thrillers, trago para vocês a indicação de um livro de relatos e experiências de pessoas da fé cristã que, infelizmente, encontraram pelo caminho pessoas mal-intencionadas ou que nem mesmo tinham noção do mal que estavam causando ao outro. Feridos em Nome de Deus, de Marília de Camargo César, é um confronto que merece muita discussão.

 

Um ponto inicial para falar sobre este livro é entender que ele é uma obra que se assemelha a um projeto de pesquisa universitária, onde encontramos relatos apresentados pela autora, entrevistas com especialistas e outros estudiosos do tema, além de textos de referência, tanto bíblicos quanto externos. Eu classificaria este livro mais como um projeto de estudo sobre o caso, bem longe da literatura de autoconhecimento, justamente por trazer luz para um problema que, infelizmente, é mais comum do que se imagina.

 

Marília fala sobre o mal de algumas igrejas evangélicas pentecostais e neopentecostais: o abuso que muitos líderes desse ramo exercem sobre os fiéis. Alguns exemplos são as exigências de fidelidade financeira absurdas, com pedidos de doações que passam do normal, ou as famosas “profecias” que exigem da pessoa uma mudança drástica e que, na maioria das vezes, não é benéfica. Um dos relatos marcantes da obra é o de um pai de família que se viu à beira de perder tudo por seguir cegamente um desses líderes, a ponto de negligenciar a própria esposa e os filhos.

 

As histórias variam entre recomeços e pessoas que já conseguiram se reencontrar, mas o ponto principal dos relatos é como o acompanhamento psicológico fez a diferença. Tendo crescido no meio cristão pentecostal, senti, em muitos momentos, quase como gatilhos, frases que ouvi sobre outros, como “fulano não está de acordo com a vontade de Deus” ou “beltrano deixou o inimigo tomar conta”; quando eram pessoas que só decidiram não aceitar mais o jugo de exigências fora do normal, como largar a família por dias e ir viajar como “missionário”.

 

O livro não fala de um nome específico ou placa de denominação, mas serve de alerta para que as pessoas saibam reconhecer comportamentos que não condizem com o biblicamente correto. Particularmente, em alguns relatos, senti que algumas pessoas trocavam uma forma de culpa por outra, como uma moça que relatava ter entendido “seus erros” com o uso de constelação familiar; uma prática que já é muito malvista no ramo da psicologia por gerar mais culpa do que, de fato, tratar o paciente.

 

Foi uma leitura que fiz ao longo de uma semana, parando em alguns momentos para remoer e pensar em como, muitas vezes, vi casos assim e, sem nem perceber, repliquei tais discursos. Um dos pontos trazidos pela autora é justamente como quem machuca, muitas vezes, cresceu sendo machucado também e viveu aquilo por anos, chamando de doutrina o que, na verdade, nada mais era do que convicções de homens com pouco ou nenhum caráter.

 

A obra realmente é bem menor do que poderia ser, já que tem pouco mais de duzentas páginas; essa amostragem se torna pequena dentro de um tema sobre o qual há tanto a ser dito e estudado que parece que exigiria uma obra enciclopédica infinita. A verdade é que, com trabalhos como este de Marília, é possível abrir a roda de conversa sobre o tema, chamando pessoas de dentro e de fora das vertentes mais difíceis para discutir.

 

E, para aqueles que não são de uma igreja cristã, mas sentem curiosidade, a obra é uma maneira de entender como líderes abusivos agem. Basta trocar a religião para notar que alguns desses abusos acontecem da mesma maneira e com a mesma intensidade. Essa é, sem dúvidas, uma leitura que vale a pena ser feita por quem se interessa em estudar psicologia, religiões e o ser humano em suas diferentes complexidades.

Comentários

Postagens mais visitadas