Corra, Querida, Corra || 2020
Quando o encontro perfeito se transforma em uma corrida pela sobrevivência...
Olá, amores! Mila aqui e irei falar sobre Corra, Querida, Corra (Run Sweetheart Run) que é um filme que começa quase como um suspense romântico e, quando percebemos, já estamos acompanhando uma mulher correndo pelas ruas de Los Angeles tentando sobreviver à noite. Dirigido por Shana Feste, o longa foi produzido em 2020, mas chegou ao público apenas em 2022, pelo Amazon Prime Video. Com 1h44 de duração, a produção mistura terror, suspense e uma espécie de horror sobrenatural para contar a história de Shari (Ella Balinska), uma mãe solteira que, depois de muita insistência dos colegas de trabalho, aceita voltar a sair com alguém. Seu chefe marca um jantar com Ethan (Pilou Asbæk), um cliente importante, e tudo parece caminhar para aquela situação clássica de um encontro que pode dar certo. O problema é que a noite está muito longe de terminar como Shari imaginava.
Uma das coisas que mais gosto na construção inicial é justamente a normalidade. Shari está nervosa, mas também animada. Ela não está entrando em uma situação obviamente perigosa já que Ethan parece ser exatamente o tipo de homem que alguém apresentaria como um bom partido. Educado, bem sucedido, charmoso e aparentemente interessado nela. O filme faz questão de construir essa imagem e isso torna a transformação muito mais desconfortável. O perigo não chega acompanhado de uma placa avisando que existe alguma coisa errada. Ele está sentado à mesa, conversando, sorrindo e fazendo Shari acreditar que finalmente teve uma noite agradável.
Ella Balinska é fundamental para que essa mudança funcione. A atriz consegue passar da expectativa de alguém que está tentando se permitir uma nova experiência para o desespero de uma mulher que percebe que está diante de uma pessoa completamente diferente daquela que imaginava. E o filme depende muito dessa transformação porque, depois que o encontro sai do controle, praticamente tudo passa a ser visto pela perspectiva dela. A câmera acompanha sua fuga, seu medo, seus machucados e suas tentativas desesperadas de encontrar ajuda. Não estamos apenas observando Shari fugir: somos colocados na posição de tentar entender em quem ela pode confiar.
Pilou Asbæk também merece destaque justamente porque Ethan não é um vilão que precisa gritar o tempo inteiro para parecer ameaçador. Existe uma tranquilidade nele que torna o personagem ainda mais perturbador. Ele sabe exatamente o efeito que causa e parece se divertir com a vulnerabilidade de Shari. O contraste entre o homem que apareceu no restaurante e aquele que surge depois é um dos pontos altos do filme. A máscara de cordialidade cai, mas algumas características permanecem, e é justamente essa continuidade que faz a ameaça parecer tão real.
A partir do momento em que Shari começa a correr, a trama muda completamente de ritmo. O jantar deixa de ser o centro da narrativa e a cidade passa a funcionar quase como um labirinto. Shari precisa atravessar diferentes lugares, pedir ajuda a desconhecidos e descobrir rapidamente em quem pode confiar. E existe uma crueldade muito interessante nisso porque mesmo quando ela consegue chegar perto de outras pessoas, isso não significa necessariamente que está segura.
Essa é uma das partes em que o filme consegue ir além do simples "homem persegue mulher". O terror está também na dificuldade de ser acreditada. Shari está machucada, assustada e tentando explicar o que aconteceu, mas nem sempre encontra pessoas dispostas a enxergar aquilo que está diante delas. Algumas não entendem a gravidade, outras preferem não se envolver e há ainda aquelas que parecem ter seus próprios interesses. Aos poucos, a perseguição deixa de ser apenas física e passa a representar uma situação em que a protagonista precisa lutar contra uma estrutura que parece estar funcionando contra ela.
É nesse ponto que a produção encontra uma discussão bastante evidente sobre violência contra mulheres, relações de poder e a maneira como determinados homens conseguem esconder comportamentos monstruosos atrás de uma aparência socialmente aceitável. Ethan não é assustador porque parece um monstro desde o primeiro minuto. Ele é assustador porque sabe parecer normal. E isso torna algumas das primeiras cenas ainda mais importantes depois que sabemos o que está por trás daquele comportamento.
O filme também faz escolhas interessantes ao inserir elementos sobrenaturais nessa história. Ethan não é simplesmente um perseguidor humano e a situação de Shari está ligada a uma mitologia maior, envolvendo outras mulheres e uma força que transforma aquela perseguição em algo muito mais amplo. A proposta poderia facilmente ter resultado em um terror sobrenatural completamente diferente, mas Corra, Querida, Corra tenta usar esse aspecto fantástico para ampliar a discussão que já estava presente na narrativa.
Ao mesmo tempo, essa é uma das partes que considero mais irregulares. Enquanto o suspense funciona melhor quando está concentrado na fuga de Shari e na sensação de que Ethan pode aparecer a qualquer momento, a mitologia sobrenatural nem sempre recebe o desenvolvimento necessário. O filme apresenta conceitos interessantes, mas alguns deles parecem chegar tarde demais ou ser explicados de maneira rápida. Existe uma história muito maior por trás daquela noite, e eu gostaria que o roteiro tivesse explorado algumas dessas ideias com mais calma.
Isso também interfere um pouco no ritmo. O primeiro ato é relativamente controlado, depois a história entra em uma perseguição quase contínua e, quando finalmente começa a explicar o que está acontecendo, precisa acelerar para conseguir encaixar todas as respostas antes do final. Não chega a comprometer completamente a experiência, mas deixa a impressão de que o filme tinha material para ser ainda mais interessante caso tivesse escolhido desenvolver melhor sua mitologia.
Ainda assim, algumas sequências são bastante eficientes porque a diretora entende que nem sempre é necessário mostrar tudo. A ameaça de Ethan funciona especialmente bem quando ele está fora de quadro ou quando Shari acredita ter encontrado um lugar seguro. A sensação de que ele pode aparecer novamente cria uma tensão constante e isso mantém o filme em movimento mesmo quando a perseguição física diminui.
Mesmo com essas limitações, gosto da conclusão porque ela não trata Shari simplesmente como uma vítima que precisa escapar do vilão. A trajetória dela durante aquela noite modifica a personagem. Ela começa o filme tentando acreditar que pode confiar novamente em alguém e termina compreendendo que sobreviver também significa reconhecer aquilo que está acontecendo ao seu redor e encontrar forças para reagir. O encerramento não apaga o que aconteceu nem transforma tudo magicamente em algo simples. Existe uma sensação de enfrentamento, de retomada de controle, que considero importante para a proposta.
No fim, Corra, Querida, Corra talvez não seja um terror perfeito, mas é um filme que possui uma ideia muito mais interessante do que sua aparência inicial sugere. Ele começa como um encontro que deu errado e termina falando sobre violência, medo, poder, descrédito e sobrevivência. Algumas partes são mais bem desenvolvidas do que outras, especialmente quando o roteiro entra profundamente no sobrenatural, mas a atuação de Ella Balinska sustenta a experiência e faz com que a jornada de Shari seja o elemento mais importante da produção.
E existe algo particularmente incômodo na maneira como o filme apresenta Ethan: ele não precisa ser um monstro desde o primeiro momento. Ele precisa apenas ser convincente o suficiente para que Shari aceite sentar à mesa com ele. O restante da noite faz o espectador entender o quanto uma aparência agradável pode esconder algo completamente diferente.
Indicado para quem gosta de terror com suspense, perseguições, protagonistas femininas, histórias de sobrevivência e filmes que utilizam o sobrenatural para falar sobre problemas bastante reais. Também funciona para quem gosta de produções que misturam gêneros, porque começa como um encontro romântico, vira um thriller de perseguição e termina assumindo características muito mais próximas do horror sobrenatural.
No final, a corrida de Shari não é apenas para chegar viva em casa. É uma corrida para recuperar o controle sobre a própria história e descobrir que, às vezes, sobreviver significa finalmente parar de fugir.
Aos curiosos, segue o trailer:









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