A Morte do Demônio: Em Chamas || (2026)
Quando o luto abre as portas para o inferno...
Olá, amores! Mila aqui e falarei sobre mais um capítulo de uma das franquias mais conhecidas do terror. A Morte do Demônio: Em Chamas chega com a proposta de levar o horror corporal a outro nível, apostando em violência gráfica, possessões e situações cada vez mais extremas. Dirigido por Sébastien Vaniček, que também assina o roteiro ao lado de Florent Bernard, o filme tem aproximadamente 1h50 de duração e faz parte do universo criado por Sam Raimi. Minha experiência foi positiva, mas existe uma mudança importante na identidade da franquia que me incomodou: sinto que o humor, tão característico de Evil Dead, acabou perdendo espaço para uma violência muito mais intensa.
A história acompanha Alice (Souheila Yacoub) que, após perder o marido, precisa conviver com a família dele para finalizar algumas burocracias. O que deveria ser um momento de acolhimento acaba se transformando em um pesadelo. Presa em um ambiente que deveria representar segurança, Alice precisa enfrentar uma ameaça que cresce rapidamente e transforma a reunião familiar em uma verdadeira carnificina.
A escolha desse cenário funciona muito bem. Existe algo especialmente cruel em transformar um lugar que antes havia vida, apenas em luto, ainda mais quando a protagonista precisa lidar com pessoas que, até pouco tempo antes, faziam parte de sua vida de alguma maneira. A família deixa de ser um possível apoio e passa a representar o perigo, criando uma situação em que não há muito espaço para respirar, confiar ou simplesmente pensar. O filme aproveita esse conflito para manter a sensação de que qualquer pessoa pode se tornar uma ameaça a qualquer momento.
Alice também funciona como centro dessa experiência. O luto já a coloca em uma posição emocionalmente vulnerável e o horror que surge ao seu redor não permite que ela tenha tempo para processar o que está acontecendo. A personagem precisa reagir enquanto tudo desmorona, e essa urgência ajuda a sustentar o ritmo. Souheila Yacoub entrega uma protagonista que transmite desespero e exaustão sem depender apenas de gritos, algo importante em uma história na qual o sofrimento físico e emocional se misturam constantemente. O elenco ao redor contribui para o clima, embora o filme esteja muito mais interessado em colocar seus personagens em situações extremas do que em desenvolver profundamente cada um deles.
E é justamente aí que entra uma das principais características desta produção: a violência. O longa não parece interessado em aliviar a tensão ou nos poupar de imagens desagradáveis. O horror corporal ocupa um espaço enorme na narrativa, com ferimentos, transformações e cenas construídas para provocar repulsa. Existe uma intenção clara de nos fazer sentir o desconforto e, nesse aspecto, o filme entrega o que propõe. Para quem procura um terror gráfico, há bastante material para se impressionar (ou desviar o olhar). E já deixo o meu aviso para quem não gosta quando animais se ferem pois o filme usa desse gatilho mais de uma vez.
Apesar de reconhecer que essa abordagem funciona, não consigo deixar de sentir falta de algo que considero essencial na identidade da saga Evil Dead: o humor. A franquia sempre teve uma relação muito particular com a violência, especialmente nos trabalhos de Sam Raimi, em que o absurdo, o grotesco e o cômico podiam coexistir na mesma cena. Mesmo quando tudo estava coberto de sangue, havia espaço para exageros e momentos em que o horror se tornava tão absurdo que acabava provocando risadas.
Em Em Chamas, sinto que esse equilíbrio se perdeu. A violência não é exatamente um problema por si só, porque o universo de Evil Dead sempre foi brutal e não espero que todos os capítulos repitam a mesma fórmula. A questão é que, aqui, o filme parece mais interessado em aumentar o sofrimento e tornar cada sequência mais perturbadora do que em brincar com o próprio exagero. O resultado é um terror mais pesado, sério e desagradável, que troca parte da diversão macabra por uma experiência de agressividade constante.
Isso não significa que o longa não tenha momentos de impacto ou que eu não tenha gostado dele. Pelo contrário: há sequências que funcionam justamente pela coragem de levar o horror até consequências extremas. Mas senti falta daquela sensação de que o filme está se divertindo com a própria insanidade. O humor não precisa transformar tudo em piada, nem diminuir o perigo dos personagens. Ele pode tornar a violência ainda mais surpreendente ao quebrar a tensão no momento certo. Sem essa alternância, algumas cenas acabam parecendo construídas apenas para superar a anterior em brutalidade.
Visualmente, a produção focou na proposta claustrofóbica. A casa isolada favorece a sensação de confinamento, enquanto a fotografia e os efeitos ajudam a dar peso às situações mais grotescas. A maquiagem é parte importante dessa experiência e o trabalho com o corpo humano mantém viva uma das marcas mais reconhecíveis da franquia. O filme também sabe explorar o espaço limitado para criar confrontos caóticos, nos quais a ameaça parece estar sempre perto demais. E isso talvez se reforce com a quantidade de zoom em cenas nada suaves.
Outro aspecto interessante é como a história utiliza os relacionamentos familiares para construir parte de seu horror. O filme permite uma leitura sobre relacionamentos tóxicos, especialmente quando pensamos em como a proximidade e a intimidade podem tornar determinadas situações mais difíceis de enfrentar. Nem sempre as pessoas que estão ao nosso lado nos fazem bem, e nem todo vínculo familiar é necessariamente saudável apenas por existir.
No desenvolvimento geral, A Morte do Demônio: Em Chamas entrega uma história independente que pode ser acompanhada por quem não conhece todos os filmes anteriores. Para quem já acompanha a franquia, porém, a comparação é inevitável. Cada capítulo pode encontrar sua própria maneira de trabalhar o terror, mas existe uma diferença entre renovar a fórmula e deixar para trás uma característica que eu acho que fazia tudo mais "especial". Aqui, o resultado é competente dentro do terror gráfico, mas menos marcante quando penso na combinação de horror e comédia que fez Evil Dead conquistar tantos fãs.
No fim, gostei do filme e reconheço que ele cumpre o que promete. Temos uma experiência violenta, sangrenta e desconfortável e a minha ressalva está menos na quantidade de gore e mais na ausência daquele humor perverso característico dos outros filmes. É um bom capítulo para quem quer sentir o peso do terror (e fiquei agoniada a maior parte do tempo), mas não foi o que mais me conquistou na identidade da franquia.
Indicado para quem gosta de terror sobrenatural, possessões demoníacas, horror corporal e cenas bastante explícitas. Também pode agradar aos fãs que querem acompanhar os novos caminhos da franquia, desde que estejam preparados para uma abordagem mais séria e brutal. Já quem procura principalmente o humor absurdo dos filmes clássicos pode sentir falta dessa mistura tão característica.
E, se leu até aqui, o final do filme vem com duas cenas pós crédito que merecem atenção ;D
Para os curiosos, segue o trailer:









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