Pedro Páramo - Juan Rulfo

 


Aos leitores apaixonados pelo realismo mágico latino, Darth Nyx chegando aqui com uma indicação mais que adequada: Pedro Páramo, de Juan Rulfo! A história envolvente, que não segue uma linha de tempo determinada, conquista em poucas páginas e, sem dúvidas, causa um impacto único. 


Esta é a única obra de romance de Rulfo, e acompanha a promessa feita por Juan Preciado à mãe moribunda em seu leito de morte. O rapaz, em meio ao luto, sai em busca do pai, Pedro Páramo, um lendário assassino. Sua jornada é marcada por encontros com figuras cujos relatos são repletos de memórias, todas focadas na crueldade implacável de seu pai.


Sem seguir uma estrutura de linha temporal exata, o autor também não usa Juan como narrador fixo, recorrendo a outros personagens para viajar pelo tempo e dar vida às histórias. A cada página, é como se estivéssemos mergulhando mais e mais nesse mundo, nos envolvendo em sentimentos de todo um povoado, que vai desde amor até um profundo temor em torno desse homem.


A figura principal é Pedro Páramo e não ouvimos dele nada na história, apenas de outros personagens que o descrevem. O leitor é como Juan, que está aprendendo sobre a figura mítica de seu pai e o passado que o permeia por completo. Além disso, o vilarejo é uma mistura de vida e morte, onde o leitor também não sabe se a figura conversando com o personagem é ou não alguém vivo ou um eco do passado, uma espécie de espectro que é como uma impressão do que um dia foi real.


O livro é curto, sem divisões claras de capítulos ou indicações explícitas de quem está contando a história. No início da narrativa, confesso que não tinha certeza de onde o realismo mágico iria se encaixar. Cheguei a me perguntar se a trama realmente seria envolta por aquela magia cotidiana e inexplicável tão característica do gênero. Mas não demora muito para que isso fique claro. Diferente de algumas obras que, logo nas primeiras páginas, apresentam o extraordinário em meio ao lugar comum, aqui essa construção acontece aos poucos, acompanhando o avanço da história e surgindo de maneira bastante sutil a princípio. É o tipo de livro que, enquanto você lê, lembra uma música que começa suave, quase despretensiosa, e vai ganhando força até se transformar em algo estrondoso. Juan consegue construir, em seu personagem homônimo, uma identidade que pouco a pouco deixa de pertencer somente a ele e passa a se misturar com o próprio vilarejo onde a trama se desenrola.


O realismo mágico é um estilo que mistura o sobrenatural, o místico e o fantástico ao cotidiano, fazendo com que acontecimentos que normalmente seriam considerados extraordinários sejam tratados com naturalidade pelos personagens, em uma realidade muito próxima da nossa. O gênero também ganhou força como uma forma de representar e denunciar situações de regimes totalitários, além de diferentes problemas sociais e políticos. Minhas primeiras aventuras pela literatura fantástica desse tipo começaram com Isabel Allende, em A Casa dos Espíritos, e, durante a leitura deste livro de Rulfo, tive algumas vezes a sensação de estar retornando àquela trama tão intensa construída pela autora. Aqui, porém, encontramos um vilarejo que parece respirar suas próprias histórias, habitado por vozes que gritam do passado e por ecos esquecidos que despertam com a simples menção do nome de Pedro Páramo.


Há interpretações de que a obra seja como uma alegoria, onde temos o México ferido, com suas dores e revoluções, usando de uma aldeia seca onde apenas os mortos conseguem sobreviver para contar os horrores de sua história e política. Pedro Páramo seria então sobre a presença da morte junto da vida, com uma poesia simples disfarçada de prosa para narrar o enredo.


Foi uma experiência de leitura incrível, que me deixou reflexiva ao final sobre como seria descrever momentos vividos por antepassados ou buscar saber mais sobre eles. O vilarejo é como uma cidade perdida que está respirando silenciosamente, esperando por um fôlego de vida disposto a ouvir sobre seu passado glorioso. E quantos de nós também não estamos assim, esperando que ouçam nossas histórias? 


Assim como começa, o livro também termina sem se preocupar em explicar tudo o que você acabou de ler. E talvez a intenção seja essa, fazer com que o leitor se sinta como Juan, simplesmente vivenciando aquelas histórias, sem precisar encontrar uma resposta para cada acontecimento. É uma leitura que exige certa entrega, especialmente para quem gosta de tramas mais complexas e abertas a interpretações. Se você aprecia histórias que partem do cotidiano e, aos poucos, deixam o extraordinário invadir a realidade de maneira sutil, este é certamente um livro que vale a pena conhecer.


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