Ladrões de Medula - Cherie Dimaline
Darth Nyx por aqui com uma indicação de obra indigena imperdível! Vencedora de diferentes prêmios literários canadenses, Cherie Dimaline é autora de Ladrões de Medula, livro lançado pela editora UK’A.
A trama distópica leva o leitor para um mundo futurista devastado pelo aquecimento global, marcado por destruição ambiental, ganância e falta de recursos básicos, como água potável. Em meio a esse cenário, as pessoas começam a perder a capacidade de sonhar, o que acaba levando a uma loucura generalizada.
Com o caos instaurado, cientistas notam que um grupo de pessoas continuam sonhando: os indígenas. A princípio, os vemos se aproximar desse grupo em busca de respostas na cultura e na história indígena. Porém, a paciência logo acaba, e então que o antigo modelo de “escolas” volta. Esses espaços até se assemelham a ambientes de ensino, mas são, na realidade, locais destinados à tortura, criados em busca do lucro do “homem branco”, que aqui, é a extração desumana da medula óssea dos indígenas.
Um pequeno momento de história, principalmente porque essa parte não é tão divulgada nos estudos básicos, uma mancha da colonização no Canadá são as escolas residenciais, que nada mais eram que internatos forçados aos indígenas e que funcionaram entre os séculos XIX e XX com o objetivo de assimilar culturalmente as crianças. As crianças eram retiradas a força de suas famílias e obrigadas a morar nesses ambientes, onde seus direitos não eram respeitados e até hoje se descobrem horrores vividos nestes ambientes.
A história é contada pela voz de Frenchie, um garoto que perdeu sua família e encontrou, entre desconhecidos, um grupo em busca de sobrevivência. Formado por pessoas de diferentes povos indígenas (incluindo idosos, adultos, adolescentes e crianças), o grupo caminha pela floresta, vive da terra, procura um lugar seguro e, durante o percurso, compartilha suas histórias.
Cherie Dimaline constrói um questionamento importante: afinal, até que ponto o direito de ir e vir do outro é garantido? O que nos impede de revogar esses direitos e voltar a caçar nossos semelhantes, como já foi feito nos primórdios do mundo colonizado? As escolas apresentadas por ela são um terror vivo na memória dos povos indígenas canadenses: ambientes que usam uma fachada de acolhimento para esconder horrores perturbadores, onde a morte, para muitos, acabava sendo a saída mais fácil e menos dolorosa.
Ler essa obra foi como encarar um pesadelo a cada página. Desde a perspectiva de imaginar o que seria o futuro daqueles personagens até acompanhar as histórias que cada um carregava consigo, tudo causa um impacto difícil de ignorar. Sinto que é uma leitura de formação que precisa chegar a mais jovens, principalmente àqueles que ainda estão aprendendo sobre os povos originários que já habitavam este continente quando os europeus chegaram, e que, anos depois, tiveram suas terras e vidas marcadas pela violência da colonização, enquanto pessoas negras eram escravizadas e trazidas para cá em correntes.
Os personagens, de diferentes idades, vão crescendo e se transformando a cada momento da história, o que é triste e, ao mesmo tempo, muito real. Existem momentos em que nos sentimos ali, diante das escolhas difíceis que cada um precisa fazer e vivenciando na pele o que cada uma dessas decisões significa. Mas é por meio de cada palavra do idioma originário, de cada canção que se recusa a ser esquecida e de cada troca de conhecimento que eles também resistem ao esquecimento e à destruição.
Dimaline tem o talento único de nos levar a um futuro distante e assustador, mas que, infelizmente, se aproxima muito de discussões que fazem parte da nossa realidade. Temos rios contaminados por data centers, nascentes destruídas por fábricas e uma perda cada vez mais evidente das tradições de oralidade, nas quais histórias e conhecimentos eram compartilhados entre gerações.
Se você gosta de sonhar ou se nunca sonhou, recomendo conferir essa história imperdível. Ladrões de Medula é uma distopia que leva o leitor por caminhos esquecidos e acompanha uma busca por sobrevivência que se transforma em uma luta pela memória, pela identidade e pela continuidade de um povo.
O livro está disponível diretamente no site da editora UK’A.




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