Happiness || 2021
Quando o verdadeiro vírus não está no sangue, mas nas escolhas...
Olá, amores! Mila aqui e depois de algumas indicações, já sabemos que os dramas sul-coreanos conseguem transformar premissas conhecidas em histórias bem surpreendentes. Zumbis, epidemias e sobrevivência deixaram de ser novidade há muito tempo, mas "Happiness", lançado em 2021 e atualmente disponível na Netflix, encontra uma maneira bastante própria de abordar esse universo. Dirigido por Ahn Gil-ho e escrito por Han Sang-woon, o dorama utiliza um surto de uma misteriosa doença infecciosa como ponto de partida para discutir medo, desigualdade social, egoísmo e a facilidade com que a humanidade desmorona quando sua rotina é interrompida.
Com apenas uma temporada de 12 episódios, variando entre 60 e 70 minutos, a série consegue construir uma narrativa bastante fechada. Ao invés vez de expandir constantemente seu universo, concentra praticamente toda a história dentro de um único condomínio residencial colocado em quarentena após o surgimento de uma doença que transforma pessoas em criaturas extremamente violentas durante surtos repentinos de sede. Essa limitação espacial acaba trazendo uma carga psicológica maior, apesar de bem menos intensa do que eu esperava.
A protagonista é Yoon Sae-bom (Han Hyo-joo), integrante de uma unidade especial da polícia (DOE), uma mulher extremamente prática, impulsiva e acostumada a resolver problemas antes mesmo que eles cresçam. Ao seu lado está Jung Yi-hyun (Park Hyung-sik), um detetive que acompanha Sae-bom desde os tempos de escola. Os dois decidem realizar um casamento por conveniência para conseguir um apartamento no novo complexo residencial, mas o que parecia ser apenas uma solução burocrática rapidamente se transforma em uma luta pela sobrevivência quando o prédio inteiro entra em isolamento.
Grande parte do charme da série está justamente na relação entre seus protagonistas. Diferentemente de muitos romances presentes em doramas, aqui o relacionamento nunca interrompe o ritmo da narrativa. Pelo contrário, ele fortalece cada decisão tomada pelos personagens. Han Hyo-joo entrega uma protagonista extremamente carismática, que foge completamente da figura tradicional da heroína delicada. Sae-bom é inteligente, direta, toma decisões difíceis e raramente espera que alguém a salve. Sua coragem, no entanto, nunca é apresentada como perfeição. Ela também erra, se desespera e precisa lidar com consequências imprevisíveis.
Já Park Hyung-sik oferece um contraponto interessante. Yi-hyun é mais racional, paciente e emocionalmente estável, funcionando como equilíbrio para a impulsividade de Sae-bom. A química entre os dois acontece de maneira extremamente natural. Muito antes do romance ganhar espaço, o espectador acredita na amizade, na confiança e no respeito que construíram ao longo dos anos. Isso faz com que os momentos emocionais tenham muito mais peso do que simples declarações de amor.
O elenco secundário talvez seja um dos maiores responsáveis pela qualidade da série. Cada apartamento abriga um pequeno retrato da sociedade. Há médicos, empresários, idosos, famílias com crianças, moradores ricos, trabalhadores comuns e pessoas que enxergam a tragédia apenas como uma oportunidade de benefício próprio. Nenhum deles está ali apenas para preencher espaço. Conforme o isolamento avança, cada personagem revela diferentes formas de reagir ao medo.
E não é só dentro dos prédios que temos um gostinho de personalidade que trará um peso para a trama. Personagens como Han Tae-seok (Jo Woo-jin), um oficial do exército que acompanha a evolução da epidemia, nos dará aquele gostinho do mundo do lado de fora e como interesse pessoal e política se misturam. Embora inicialmente pareça apenas uma figura militar rígida, o personagem ganha profundidade conforme suas motivações pessoais são reveladas, tornando-se uma peça importante para compreender a dimensão da crise.
Happiness, assim como alguns filmes e séries com zumbis, mostra que seu ponto principal é que os infectados nunca são o verdadeiro centro da narrativa. Eles representam o perigo imediato, mas o verdadeiro problema é o comportamento humano. Conforme alimentos diminuem, informações se tornam escassas e o medo cresce, moradores passam a desconfiar uns dos outros, esconder segredos, criar alianças temporárias e tomar decisões moralmente questionáveis. A série demonstra que, muitas vezes, o colapso social acontece antes mesmo do colapso biológico.
O uso dos corredores estreitos, elevadores silenciosos e apartamentos cada vez mais claustrofóbicos cria uma atmosfera sufocante sem depender de grandes sustos. O suspense nasce da expectativa. Nunca sabemos quando um personagem perderá o controle ou quando uma decisão aparentemente pequena desencadeará um novo conflito.
Porém, é falando sobre decisão que preciso citar um ponto da série que me incomodou. A passividade em lidar com personagens claramente ruins, irritantes e maldosos, traz um ritmo que irrita. Em situações de intensidade, eu queria gritar com a tela para punirem personagens que em várias situações, pensavam apenas em si mesmos. E uma coisa é aceitar o erro uma vez, mas três, quatro e até cinco vezes? É burrice. E esse tipo de decisão me faz pensar que alguns roteiros realmente subestimam a inteligência de quem irá assistir. E isso aconteceu bastante por aqui.
Mas, apesar disso, outro aspecto que merece elogios é o ritmo. Em apenas doze episódios, praticamente não existem desvios narrativos desnecessários. Cada acontecimento impulsiona a história para frente e desenvolve seus personagens simultaneamente. Mesmo os momentos mais tranquilos servem para aumentar a tensão emocional, preparando o terreno para novos conflitos.
Claro que alguns personagens que pareceram ter um desenvolvimento importante, se perdem um pouco por causa da quantidade de pessoas que temos na tela. Mas nada parece ficar sem algum tipo de resposta até a conclusão do dorama.
A série também faz críticas sociais bastante interessantes com questões relacionadas à diferença entre classes sociais, privilégios, burocracia imobiliária e comportamento coletivo aparecem naturalmente dentro da narrativa. O condomínio funciona como uma pequena representação da sociedade, onde dinheiro, posição social e influência rapidamente deixam de significar segurança quando todos passam a enfrentar o mesmo perigo.
A conclusão da história é coerente com tudo o que foi construído ao longo da temporada. Em vez de apostar apenas em grandes revelações, o desfecho concentra seus esforços nas consequências das escolhas feitas pelos personagens. A série entende que o verdadeiro impacto da jornada não está apenas em descobrir como enfrentar a doença, mas em observar quem cada pessoa escolheu ser durante o caos.
Happiness traz uma boa discussão sobre empatia, egoísmo, confiança e sobrevivência. É um dorama que entrega ação, suspense, romance e crítica social em doses muito bem equilibradas, sem perder o foco em seus personagens. Ou seja, indico facilmente para quem gosta de thrillers psicológicos, histórias de sobrevivência, romances construídos com naturalidade e séries que utilizam o suspense para discutir comportamento humano.
Para você, curioso de plantão, segue o trailer:




Comentários
Postar um comentário