Amores Materialistas || 2025
Amar é fácil. Encontrar alguém, não.
Sinopse: Nesta história acompanhamos Lucy Mason (Dakota Johnson), uma casamenteira sênior da empresa Adore que vê sua carreira deslanchar depois de somar mais um casamento ao seu currículo impecável. Ela é a melhor no que faz, e sabe exatamente o porquê disso. Ela reduz o amor a uma matemática simples, um olhar clínico que enxerga as pessoas quase como mercadorias em uma prateleira de desejos. É em meio à festa de casamento de seus clientes que ela conhece Harry Castillo (Pedro Pascal), o tipo de homem que reúne tantas qualidades que se torna o tal "unicórnio" sonhado em toda lista de requisitos femininos.
Mas o coração raramente obedece a listas. E é assim que o passado volta para desarrumar tudo o que Lucy pensava ter resolvido, na forma de John Pitts (Chris Evans), o homem que ela amou como só se ama uma vez na vida, mas que nunca conseguiu preencher o único requisito que ela jurou não abrir mão. Ser rico. Agora Lucy se vê diante da pergunta mais difícil que alguém pode fazer a si mesma. Escolher a vida que sempre sonhou ter, ou o amor que nunca deixou de sentir.
Percepções: Quando comecei Amores Materialistas, eu esperava encontrar mais uma comédia romântica bem clichê, com um triângulo amoroso confortável e uma protagonista dividida entre o amor de sua vida e um homem capaz de lhe oferecer segurança e conforto. Eu me enganei. A obra, que puxa levemente para um drama, não fica na superfície das escolhas do coração. Ela mergulha fundo nas etiquetas cruéis que a sociedade cola em nós, nos valores impostos que absorvemos sem perceber, até o dia em que passamos a exigi-los dos outros com a mesma dureza com que um dia foram exigidos de nós.
E isso fica visível logo no início, quando vemos Lucy ter que encontrar uma cliente que está em busca do amor, mas que ainda não sabe que já foi "descartada", mesmo depois de um primeiro encontro tão promissor. Faz um tempo que estou fora do "mercado", então confesso que foi assustador ver, ali na tela, os padrões cruéis que usamos para selecionar ou descartar alguém. Eu gostaria de dizer que isso é pura ficção, um exagero de roteiro, mas já vi cenas parecidas se repetirem em tantos vídeos que assisti, e isso dói mais do que eu gostaria de admitir.
Idade, altura, peso, quanto se ganha por mês ou por ano. Números, apenas números, que as pessoas insistem em associar à felicidade, como se existisse uma fórmula secreta para relações darem certo. E se alguém ousa se relacionar fora desses padrões, logo vem o rótulo cruel de que está se "contentando com pouco". É aí que entra Lucy, ensinando pessoas a fechar o que parece mais um bom acordo comercial. Sua visão de relacionamentos incomoda desde a primeira cena, machuca ver alguém tão inteligente reduzir seres humanos a uma lista de itens, como se isso definisse o valor real de uma pessoa.
"Quinze centímetros a mais dobram o valor do cara no mercado."
É interessante ver, em certo momento, a comparação que uma personagem faz sobre não ser mais necessário casar por conveniência, como se ainda vivêssemos na época em que reinos uniam forças através do matrimônio. E é justamente essa fala que expõe, com clareza, o quanto os casais formados ali são superficiais, uniões de pessoas que dificilmente estariam dispostas a compartilhar a velhice, ou a própria cova, como a personagem mesma admite, quase sem perceber o peso do que está dizendo.
Contudo, a visão tão bem construída de Lucy sofre um abalo profundo quando ela percebe que o "mundo dos encontros" não é feito só de boas intenções, e que suas combinações tão calculadas poderiam abrir a porta para situações perigosas. E é impossível não sentir um arrepio ao trazer isso para a nossa realidade, onde a função de casamenteira foi substituída por um simples aplicativo no celular, algoritmos que decidem por nós quem merece uma chance e quem é descartado com um deslize de dedo.
"Queria que dissesse que tô diferente. Porque estando diferente, eu não seria o cara que te perdeu."
Particularmente, adorei a forma como o roteiro mergulha no passado para revelar o romance entre Lucy e John sem o verniz do ideal, como algo tecido por duas pessoas imperfeitas, com suas fragilidades expostas à luz. Há uma verdade silenciosa ali, a de que escolher ficar ao lado de alguém, mesmo quando o amor é verdadeiro, é também escolher que peso estamos dispostos a carregar pelo resto da vida. Confesso que senti a química entre Dakota e Chris mais próxima de um afeto fraternal do que de uma paixão ardente, algo que me deixou com um leve pé atrás quanto à intensidade que a história pedia.
A menção à violência é o momento que rompe o clima leve da obra, que até ali parecia apenas um retrato de pessoas superficiais, e traz consigo um ar de suspense e drama que promete muito. Mas é uma promessa que se perde na superfície, sem a coragem de mergulhar fundo onde a dor realmente mora. Falta peso na direção, falta força no roteiro, e até a atuação de Dakota parece hesitar diante do que a cena exigia dela, foi algo que me fez fechar os olhos e lamentar tudo o que o filme poderia ter sido e não foi.
Contudo, mesmo diante de um final que não conseguiu me conquistar por completo, sinto que isso não foi suficiente para estragar a experiência que vivi. Ainda não conheci as outras obras escritas e dirigidas por Celine Song, mas essa crueza tão honesta, tão despida de artifícios, despertou em mim uma vontade genuína de mergulhar no restante de sua filmografia, na esperança de encontrar ali outros pedaços de verdade como os que encontrei aqui.
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