Feathers So Vicious || Liv Zander
Por isso, ao se ver a caminho de seu casamento com um príncipe, a perspectiva de uma união sem amor não a incomodava. Pelo menos não tanto quanto a miséria e a condição desumana em que seu povo vivia, tudo culpa da destruição deixada pelos Corvos, humanos dotados de poderes sobrenaturais. Galantia cresceu ouvindo contos sobre a crueldade deles, mas nenhuma história a preparou para o horror de se tornar o alvo. Bastou uma emboscada para que ela conhecesse a verdadeira face da maldade. Mais especificamente, a do líder deles, o temido Senhor das Sombras.
A raiva acendeu em meu íntimo.
Raiva e divertimento.
Era aquilo que ele estava tentando alcançar? Me fazer chorar? Que… interessante.
— Você não tem reino, não tem coroa. Se chama esta farsa de corte, só posso presumir que você seja o bobo dela.
Dedicatória: Para toda garota capaz de amar um vilão, desde que ele seja atraente, bem dotado e mestre em se humilhar pelo perdão.
Em Feathers So Vicious, nós embarcamos em um mundo onde reinos inteiros duelam contra os Corvos, seres capazes de se transformar nesses animais e que guardam poderes misteriosos. As batalhas limpas e idealizadas que costumamos ver por aí não existem aqui, pois esta guerra é visceral, cruel e dolorosamente verdadeira, um cenário onde a fome impera e a moralidade simplesmente não existe. A autora expõe essa realidade sem filtros, mostrando como ambos os lados se desumanizam mutuamente. Essa crueza se reflete em cenas explícitas de abuso sexual e personagens profundamente marcados por traumas, por isso é fundamental verificar os alertas de conteúdo antes de iniciar a leitura.
É nesse cenário regado a ódio e violência que conhecemos Galantia, uma jovem lady que passou a vida inteira sendo desprezada e ignorada pelos próprios pais simplesmente por seu gênero. Mas ao contrário do que poderíamos esperar de alguém criado assim, Galantia transborda uma afabilidade genuína que nos conquista quase que imediatamente, temperada por uma inteligência afiada que escapa pelos cantos da sua boca. Mesmo com sua "insignificância" sendo reforçada a cada dia, ela encontrou na figura de Risa, sua ama, a única referência de amor e cuidado que conheceu. Contudo, Liv Zander faz questão de deixar claro que traumas e desejos da infância não desaparecem como mágica quando nos tornamos adultos. E é exatamente isso que vemos em Galantia, uma jovem que carrega no peito o desejo silencioso de ser amada e escolhida.
"Por causa do seu pai, eu me tornei um milhão de pedaços estilhaçados, colados da forma errada."
Grande parte da trama gira em torno da complexidade da relação que envolve os três, algo que ganha profundidade com a apresentação dos pontos de vista de cada um. Enquanto Galantia é uma alma desesperada por amor, Sebian carrega o peso de tentar reparar os próprios erros. Já Malyr está despedaçado demais para oferecer algo além de dor e vingança. Além disso, a visão de Sebian e Malyr nos permite entender como o passado e os traumas os moldaram, mergulhar nos costumes e significados da cultura dos Corvos e, principalmente, enxergar suas verdadeiras intenções, que nunca deixam o leitor esquecer que esta é uma obra com vilões. Ambos conhecem as fraquezas de Galantia e não pensarão duas vezes antes de se aproveitar disso. E sim, você vai sofrer aqui.
Embora Sebian e Malyr sejam amigos de longa data, suas personalidades são completamente opostas, e cada um carrega seu próprio demônio interior. Não posso negar que amo essa dualidade que a presença dos dois representa. Um traz proteção e aconchego; o outro carrega consigo a sensação de perigo em cada atitude.
"Quanto mais você me faz olhar para você, pombinha, mais difícil fica para eu me lembrar do que você é. E temo que, se eu olhar por tempo demais… posso acabar esquecendo quem você é."
Ambos escondem motivos egoístas, mas reagem de maneiras muito distintas ao se abrirem para conhecer melhor Galantia e ao perceberem o despertar de sentimentos verdadeiros. Ao longo da trama, senti que a obra tentou construir uma disputa sobre qual dos dois conquistaria seu coração, mas, para mim, essa competição nunca existiu de fato. Algumas coisas simplesmente não são negociáveis.
Existe uma linha invisível que, por mais que o autor se esforce para trazer redenção a um personagem, uma vez ultrapassada, não permite mais volta. Me senti como o próprio Sr. Darcy diante de um personagem que cometeu atos indizíveis, repetidas vezes e de forma plenamente consciente, sem jamais demonstrar remorso. Como diz a célebre frase, "minha boa opinião, uma vez perdida, está perdida para sempre".
Foi doloroso perceber que Galantia estava sendo usada em alguns momentos, porque sua carência era fácil demais de reconhecer. Várias vezes tive vontade de entrar no livro e dar uns bons tapas nela, só para trazê-la de volta à realidade. A gente sente que o final está caminhando para um coração partido e torce, com todas as forças, para que seja apenas paranoia da nossa cabeça.
Mas mesmo sabendo o que vinha, isso não tornou a situação mais leve. A reviravolta se mostra muito mais difícil de engolir do que qualquer expectativa, principalmente por vir acompanhada de uma cena que nos parte em pedaços. Terminei a leitura com uma sensação de desolação, ansiando pelo próximo volume e rezando para que a dedicatória se transforme em promessa cumprida. Não à toa, vi muita gente fechando o livro em lágrimas. E, sinceramente, eu entendo perfeitamente o motivo.
Este foi meu primeiro contato com a escrita de Liv Zander, e posso dizer que já estou ansiosa para devorar as demais obras dela. Uma leitura cruel, sombria e intensa, que mexeu comigo de verdade. Confesso que a classificaria mais como Pitch Black, um subgênero ainda mais pesado e visceral, do que propriamente como Dark Romance.
Então, leia os avisos da autora com atenção e, se não forem um problema para você, venha mergulhar na escuridão comigo.
Feathers So Vicious é o volume de abertura da duologia Court of Ravens, disponível, por enquanto, apenas em inglês.
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