Convite Maldito || 2022
Parece que alguém esqueceu a regra número um da sobrevivência: nunca confie em estranhos.
Logo de cara, Convite Maldito mostra, de forma sutil, que bebeu direto da fonte de Corra! (embora o clássico de Jordan Peele seja bem mais escancarado em suas críticas). Contudo, essa obra não carrega o mesmo peso: ela entrega uma experiência muito mais light, com um roteiro raso, mas que, ainda assim, consegue prender a nossa atenção e se manter interessante.
Sinopse: Desde que perdeu a mãe há um ano, Evie carrega um vazio enorme e a sensação de que perdeu uma parte de si mesma. Completamente sozinha e sem nenhum vínculo familiar em Nova York, a jovem rala como freelancer em bufês para sobreviver enquanto alimenta o desejo de resgatar as origens que sua mãe sempre teve curiosidade de conhecer. Foi justamente em um desses trabalhos que surgiu a chance de ouro de se conectar com o passado por meio de um teste de DNA, o que a levou a descobrir Oliver, um primo distante que mora na Inglaterra e que parece ser a resposta para toda a sua solidão.
Seduzida pela ideia de resgatar suas raízes e de viajar para a Inglaterra com tudo pago, Evie aceita o convite de Oliver para um casamento luxuoso. Em um primeiro momento, o conto de fadas parece se transformar em realidade diante da recepção calorosa dos novos parentes e do clima irresistível de romance que surge entre ela e Walt, o charmoso proprietário da mansão. Contudo, enquanto ela se deslumbra com essa nova vida, algo sobrenatural, antigo e profundamente sombrio observa cada passo dela, parecendo muito mais atento à sua chegada do que ela jamais poderia imaginar.
Percepções: Sob a direção de Jessica M. Thompson e com roteiro de Blair Butler, Convite Maldito nos joga na jornada de Evelyn Jackson, vivida pela carismática Nathalie Emmanuel. A protagonista é uma jovem espirituosa que se desdobra trabalhando como freelancer em bufês para conseguir sobreviver em Nova York. Mesmo tendo uma amiga fiel com quem pode sempre contar, a solidão aperta e Evie se vê perdida após a morte da mãe, alimentando o desejo profundo de encontrar os parentes que nunca conheceu.
Essa busca por pertencimento me fisgou de um jeito muito forte, até porque passei por uma situação bem parecida que me fez parar para refletir por um bom tempo. Só que o filme joga na nossa cara aquela velha máxima de que nada é tão ruim que não possa piorar. No fim das contas, abrir a porta para novos parentes na nossa vida pode ser o convite perfeito para trazer problemas que a gente nem imaginava.
Só que a sorte parece sorrir para Evie quando ela descobre uma ala da família podre de rica e que parece ansiosa para conhecê-la e enchê-la de mimos. Mas sabe quando todos os alarmes começam a apitar na nossa cabeça porque "quando a esmola é demais, o santo desconfia"? É exatamente assim que nos sentimos. Afinal, a cena de abertura deixou bem claro que essa história está longe de ser um conto de fadas e que tem algo muito errado no ar.
Mas aí é que está, o surgimento de Walter De Ville (Thomas Doherty) na história nos faz esquecer completamente a proposta e o gênero do filme. E, bizarramente, é algo bom! Isso acontece por dois motivos: primeiro, pelo charme e atuação do ator, que nos fazem esquecer que o que vemos é um personagem (e eu adoro descobrir atores desconhecidos justamente por causa disso). Segundo, pela química instantânea que surge quando ele interage com a Nathalie. Não tem como não ser fisgado pelo clima de romance e flerte entre os dois.
Contudo, esse clima de conto de fadas sempre sofre uma quebra. Seja pelos funcionários da mansão, que sempre trazem de volta aquela sensação incômoda de hostilidade e estranheza, ou a interação de outros personagens, com diálogos que parecem soltar informações cruciais nas entrelinhas e que ajudam a atiçar a nossa desconfiança. Esse sentimento aumenta com a fotografia, que na maioria das vezes é escura e mal iluminada, algo que me irritou bastante porque em alguns momentos não dava para enxergar quase nada, e olha que não adiantava nem apagar todas as luzes da sala. Além disso, em alguns momentos a trilha sonora tentava criar momentos de tensão e jumpscare.
O que confirmava o perigo real eram as cenas que mostravam uma ameaça sobrenatural rondando o lugar, e é por isso que preciso te dar um conselho de amigo e implorar para você não assistir ao trailer, já que ele entrega todo o filme. Como já comecei sabendo de cada reviravolta, ele acabou não tendo o impacto que deveria ter tido em mim.
A obra peca um pouco na minha opinião bem no momento em que a verdade vem à tona. Fiquei com a sensação de que cortaram alguma cena importante na edição, já que um dos personagens sofre uma mudança de personalidade tão radical que acaba ficando caricato e quase beirando a insanidade. Outras atitudes também ficaram completamente sem resposta e o jeito foi só aceitar e seguir em frente, até porque do meio para o final tudo parece acontecer de forma muito corrida.
O filme também traz uma leve pitada de rivalidade feminina, embora essa disputa pareça muito mais ligada a questões raciais e sociais do que a qualquer outra coisa. Na verdade, fica claro desde o início que o racismo estrutural é uma engrenagem central na história, seja quando conhecemos o passado dos ancestrais de Evie, seja na forma escancarada como as pessoas brancas ocupam os lugares de prestígio e posse enquanto os negros e outras minorias estão sempre na posição de servir. O roteiro escolhe tratar esse abismo social ora de forma direta, ora nas entrelinhas, mas o desconforto está sempre ali.
O grande trunfo aqui é a atuação de Nathalie, que consegue fazer milagre com o roteiro e nos conquista logo de cara, nos fazendo torcer e nos identificar de verdade com a sua personagem.
No fim das contas, Convite Maldito é o tipo de filme que funcionaria muito melhor se não se levasse tão a sério. Mesmo assim, se a sua intenção for apenas desligar o cérebro e assistir a uma mistura de alta sociedade aristocrática com pitadas de terror leve, ele surge como uma opção válida para o fim de semana. 😉
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