Veneno || Peer Meter & Barbara Yelin
Hoje, convido vocês a mergulharem comigo em um mundo moldado em preto e branco, com traços intensos que parecem rabiscados a carvão. Em mais uma edição impecável da DarkSide Books, nossa passagem tem destino certo: a Alemanha, direto para o coração da sombria história do Anjo de Bremen.
Sinopse: Nesta graphic novel, nós voltamos a 1831 para caminhar por Bremen ao lado de uma jovem escritora. Através do olhar sensível e afiado dela, sentimos de perto a atmosfera elétrica e mórbida que tomou a população local, onde todos viviam a expectativa quase hipnotizante pela execução da infame viúva Gesche Gottfried.
"Silencioso, tudo silencioso, como se o mundo estivesse morto"
Percepções: Confesso que, ao abrir o livro, minha expectativa era desvendar a mente de Gesche e seus crimes, mas as páginas logo me mostraram que o foco da história seria outro. Conduzidos por uma narradora que não sabemos o nome, mergulhamos em um dos períodos mais sombrios da humanidade. Aquela era em que homens se blindavam atrás de cargos religiosos e posições de poder, usando a fé, as convicções e o status para silenciar brutalmente qualquer um que ousasse contradizer suas verdades ou trazer uma nova perspectiva ao mundo.
Com a missão de escrever um relato de viagem sobre a liberal Bremen, nossa narradora desembarca na misteriosa cidade na véspera da execução de uma viúva acusada de envenenar filhos, maridos, vizinhos e conhecidos. A presença de uma estrangeira logo desperta a curiosidade dos locais, que presumem que ela vai cobrir o caso e se aproximam tentando cavar informações, mas não demora para que as perguntas da jovem comecem a incomodar.
Mesmo com a polidez que ditava as interações entre uma mulher e os homens daquela época, uma sensação constante de perigo ronda a história e não nos deixa relaxar. Todos os personagens masculinos vestem a carapuça de cavalheiros em um primeiro momento, mas essa fachada cai rapidinho assim que são questionados ou quando a narradora toma alguma atitude que foge do que eles esperavam.
Peer e Barbara entregam uma análise brilhante que vai muito além dos assassinatos cometidos. Eles trazem questionamentos afiados sobre a sanidade mental e a cumplicidade de uma sociedade omissa. Sem jamais diminuir a gravidade das vidas perdidas, a obra escancara que a execução de Gesche não buscou justiça, mas sim o controle sobre as mulheres pelo medo. O livro mostra como o advogado de defesa, o capelão da prisão e a própria vizinhança moldaram a narrativa para tirar a humanidade complexa de Gesche, reduzindo-a ao confortável papel de "criatura usada pelo demônio".
Mesmo que o foco da obra não seja destrinchar cada crime ou invadir a mente de Gesche, os poucos vislumbres que temos desses momentos são de grande impacto. É uma história pesada, com ilustrações e fatos que grudam na cabeça e prometem nos perseguir por dias a fio.
Gesche é uma figura complexa demais, daquelas que confundem a gente por dedicar a vida a cuidar dos necessitados e, ao mesmo tempo, tirar outras vidas. Em vez de nos entregar uma explicação exata para o que ela fazia, o livro nos conduz pela teoria de que suas ações nasciam, na verdade, de uma mente profundamente adoecida.
Veneno nos faz meditar em quantos julgamentos e condenações foram legitimados pela dominância masculina. Esta é aquela típica obra que a gente consegue devorar em um único dia, mesmo que o cérebro implore por pausas para digerir toda a densidade das páginas. É uma leitura obrigatória tanto para quem é fascinado por true crime quanto para quem deseja caminhar pelas ruas de uma cidade que, no fundo, odiava mulheres.
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