Já teve aquela leitura que te deixou com uma pontinha de culpa, de quando você se pega gostando de algo que sabe ser, no mínimo, meio duvidoso?
Sinopse: Desde cedo, o pai de Rowan lhe ensinou a lição mais cruel da Arca: nesta nova ordem, todos têm um lugar pré-definido, e o dela é o de submissão. Enquanto Alfas dominam e Betas servem como engrenagens, as raríssimas Ômegas são tratadas como prêmios, destinadas a matilhas antes mesmo de darem o primeiro passo. Viver fora do radar é ser desertora; ser descoberta é tornar-se posse do primeiro Alfa que a reivindicar.
Para garantir que a filha tivesse algo que o mundo queria lhe roubar, o direito de escolha, seu pai a levou para as sombras da floresta. Lá, entre o silêncio e as árvores, ele a ensinou a camuflar sua própria natureza e a fabricar os supressores que mantêm seu segredo a salvo.
A liberdade de Rowan acaba ao atravessar um posto fiscal onde seu maior pesadelo se torna realidade ao ser descoberta. Agora, sob o domínio da matilha composta por Cade, Ryker, Killian e Talon, ela vive um dilema torturante entre a resistência e a vontade traidora de sua própria natureza ômega. No fim das contas, a dúvida que fica é se a luta será sua salvação ou apenas um adiamento do inevitável.
Percepções: Quando comecei Caging Fire, minha expectativa era encontrar algo rápido, fácil e até fofo, sabe? Apenas uma pequena fuga da realidade. Honestamente, a premissa não é ruim e o enredo possui uma boa base, com momentos que realmente fazem a gente imaginar o potencial que a história poderia ter alcançado.
Contudo, esta história não é para qualquer um. Se você está atrás de uma distopia intensa com romance militar, um omegaverso de respeito (sim, harém inverso!) e Alfas que possuem uma atitude bem babaca que a gente ama odiar... parabéns, você encontrou seu próximo vício. Senta aqui e vamos conversar. Agora, se isso não é o que procura, pode fechar esta aba e procurar a próxima resenha. Eu prometo que não fico chateada. 😉
E quando eu digo que os mocinhos são babacas, não estou brincando. Sendo bem sincera, Caging Fire deixa muito a desejar quando o assunto é romance. Faltam situações reais que justifiquem o nascimento de um sentimento verdadeiro, já que a trama foca quase exclusivamente no poder absoluto e nos caprichos dos Alfas. Dentre eles, Killian até consegue entregar algo mais próximo de um sentimento, mesmo com aquele começo brutal, mas os outros seguem caminhos um tanto complicados. Tallon mal dá as caras por conta da situação em que se encontra, Ryker foca quase totalmente em seu desejo sexual e Cade se perde em um controle sufocante sobre cada passo da protagonista.
Para você ter ideia, o primeiro capítulo quase (eu disse quase) me fez fechar o livro. Imagina começar a história pelo ponto de vista daquele tipo de personagem arrogante, mimado e que claramente pensa com tudo, menos com a cabeça de cima? Sem contar que, sério, minha paciência para o trope da "escolhida" acabou. Não aguento mais esse pensamento limitado de que ela é melhor que as outras, ou que todas as outras são fáceis e descartáveis. Juro que tento não ser a leitora chata e exigente, mas é impossível ignorar como esses argumentos são vazios. E, bem, começar uma história desse jeito passou longe do cenário ideal. O início desceu meio amargo, mas tudo se transforma no momento em que a protagonista assume as rédeas da narrativa.
Não chegamos a acompanhar os vislumbres da vida de Rowan na floresta, já que a história já começa com ela tentando atravessar um posto fiscal sem ser notada. No início, temi que essa falta de contexto tirasse a profundidade da protagonista, mas a personalidade dela transborda uma força que compensa tudo. O problema é que esse brilho acaba se perdendo justamente quando ela cruza o caminho dos nossos 'mocinhos'.
Na primeira interação entre Rowan e os Alfas as cartas são colocadas na mesa, revelando que o foco aqui é o instinto e a sexualidade. Eu nem me importaria com isso se a autora não tivesse passado 30% do livro me vendendo a imagem de uma mulher que daria a vida pela liberdade. Eu queria ver luta, queria ver aquela faísca de rebeldia contra o sistema! Mas o que recebi foi uma Rowan que, sem trocar meia dúzia de palavras ou sequer saber o nome dos caras, já estava entregue aos instintos. É frustrante quando a construção da personagem parece ser esquecida na primeira oportunidade de... saliência. Foi uma cena tão sem pé nem cabeça que me deixou processando a informação por um tempo. Eu até entenderia se ela estivesse no cio, naquele momento em que a lógica some e o instinto assume o controle, mas nem isso! Foi algo totalmente gratuito, eles queriam uma casquinha dela e simplesmente tiveram.
Minha única reação foi implorar aos deuses literários para que o harém não seguisse essa linha. E olha... infelizmente, segue. Ao menos neste volume inicial, a Rowan acaba virando um mero fantoche sem voz ativa, o que até faz sentido dentro da lógica biológica de submissão do livro, mas ela mesma não parece ter tanta vontade assim de lutar contra isso. Eu só lia e pensava: o que houve com a personalidade dessa mulher, gente? Então, se você curte a dinâmica de homens mandões, vai encontrar prato cheio por aqui, porque definitivamente não vai ser a Rowan quem vai bater o pé e mudar o rumo das coisas.
Depois percebemos como, de fato, a falta dos supressores a deixa refém de seus instintos biológicos, ao mesmo tempo em que notamos uma escolha peculiar na ordem das informações apresentadas. Esses dois elementos se tornam pilares que sustentam a nossa visão sobre a trama e definem o tom de tudo o que vamos encontrar no decorrer da leitura. Ver essa luta entre a mente dela e o despertar da natureza ômega traz um dinâmica interessante, já a imersão sofre um pouco quando o texto decide entregar a ação antes do contexto, quase um "atira primeiro e pergunta depois" que nos deixa sem rumo. A gente vê o evento acontecer mas fica no escuro sobre o porquê, precisando esperar um tempo para que as peças finalmente se encaixem. O resultado é um processo um tanto cansativo que acaba gerando aquelas desconexões desnecessárias, tirando a gente do ritmo da história justo quando as coisas deveriam engrenar.
Apesar desses detalhes, não pensem que a história é ruim. Existe um suspense bem construído sobre as reais intenções de alguns personagens nos membros do harém. Isso não só dita um ritmo instigante para a obra como também prepara o terreno para os antagonistas do próximo volume, especialmente um deles, que consegue exalar perigo sem o menor esforço. A trama fecha com uma reviravolta que, acabou não sendo surpreendente para mim, mas foi o suficiente para me manter totalmente interessada no próximo livro.
Caging Fire abre a série Crimson Camo de um jeito curioso, pois embora falhe no quesito romance, entrega tudo o que se espera de machos mandões que não sentem o menor remorso em impor suas vontades. Recomendo fortemente que vocês confiram os avisos de gatilho para decidir se este é o clima que procuram no momento, lembrando que a obra está disponível apenas em inglês.
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