Morning Glory Milking Farm || C.M. Nascosta

Calma, não foge ainda!
Eu sei, eu sei. Olhando para a capa, o título e até para essa premissa, a primeira reação é dar um passo atrás. Mas faz um favor para mim? Respira fundo, abre o coração e deixa o preconceito literário de lado. Confia na tia aqui, tá bom? Se você é do time que ama um romance fofinho, mas não dispensa um hot de respeito, essa leitura vai te surpreender!

Sinopse: Aos 26 anos, o plano de carreira de Violet está colapsando. Com o aluguel atrasado e o fantasma dos empréstimos estudantis batendo à porta, ela está a um passo de carimbar o passaporte de volta para o porão da casa da mãe.

A realidade do mercado de trabalho é cruel, ou ela é "qualificada demais" para funções simples, ou a vaga mal paga o café da manhã. Quando a esperança está no fim, surge um anúncio da Fazenda Morning Glory Milking que parece o emprego dos sonhos: salário acima da média, benefícios de verdade, horários flexíveis e não exige experiência. 

A vaga de técnico em ordenha era a luz no fim do túnel que ela precisava. Estava tudo indo bem, até chegar o dia do treinamento e Violet descobrir que o produto daquela fazenda passa longe de ser leite de vaca... 

O trabalho está ligado aos Minotauros e, mais especificamente, à coleta de sêmen. Sem uma saída melhor, Violet decide mergulhar de cabeça nessa nova profissão; afinal, é o preço da sua tão sonhada independência. 

O que ela não esperava era que, entre uma jornada e outra, conheceria Rourke. Ele é um minotauro sério, charmoso e que acaba se tornando o ponto alto da sua semana. Aquela conversa fácil, que começa sem pretensão, logo faz o coração dela acelerar e prova que, quando a conexão é real, os preconceitos simplesmente perdem o sentido.

Resta saber se Rourke sente o mesmo.

🐂🍶

Percepções: Convenhamos, com uma premissa dessas, o livro tinha tudo para ser péssimo, né? Só que não. A escrita de Nascosta é aquela mistura rara de fluidez, simplicidade e inteligência. Ela sabe exatamente o que está fazendo e logo de cara, nos joga dentro da pele de Violet, que está no limite e prestes a aceitar aquele tipo de emprego que você definitivamente não quer explicar em um almoço de domingo com a família. 

"Havia uma espécie particular de indignidade que acompanhava o fato de ser, simultaneamente, bem instruída e encontrar-se em sérias dificuldades financeiras."

Em uma ambientação super curiosa, humanos e seres sobrenaturais coexistem sem violência, mas a tensão social é nítida. Como as multiespécies costumam se isolar em cidades menores, o desconhecimento gera aquele preconceito velado que a própria Violet sente. Ela entra nessa jornada às cegas, escondendo a verdade da família e nos levando junto para descobrir um mundo que é muito mais complexo do que os olhares atravessados sugerem. O mais fascinante é como a autora usa o dia a dia e as interações de Violet com outras espécies para dar um nó nos nossos próprios preconceitos. Conforme Violet socializa, a gente é convidado a trocar a lente e enxergar o mundo de outra forma.

A trama ganha vida em um cenário, no mínimo, peculiar que é a Fazenda de Ordenha. Embora o conceito possa flertar com o cômico à primeira vista, a finalidade ali é estritamente farmacêutica. É fascinante como a narrativa desconstrói o que poderia ser puramente sexual, transformando a maior parte das cenas em algo que remete muito mais a um laboratório de coleta de amostras do que a um ambiente erótico. É estranho? Sim, mas visualmente clínico e organizado. Mas, como em qualquer prestação de serviço, o lugar atrai de tudo; inclusive aqueles tipos "complicados" que adoram causar uma confusão básica. É justamente nesse caos cotidiano da fazenda que cruzamos com o par da nossa protagonista, Rourke.

— Acho que você me matou agora. 
— Para um cadáver, você é bem mandão.

À primeira vista, Rourke poderia estar em qualquer romance contemporâneo sobre empresários poderosos. Ele é sólido, extremamente educado e vive uma realidade de luxo. Para quem busca aquele "lado fera" dos minotauros, fica o aviso, ele é tão civilizado que quase esquecemos sua origem. O choque cultural é praticamente inexistente, o que pode ser um ponto negativo para alguns leitores. O único lembrete de que Rourke não é um homem comum surge justamente no momento da ordenha.

Sobre o romance... gente, que química gostosa! Existe um equilíbrio muito interessante entre os protagonistas. A Violet é uma personagem com a qual é fácil se identificar, ela carrega dúvidas reais sobre o futuro e aquele frio na barriga de um relacionamento interespécies. Por sorte, a presença sóbria do Rourke traz o contraponto ideal para essa insegurança, criando um contraste maduro entre o dilema dela e a estabilidade dele. 

Tem tanta coisa que me conquistou nessa relação! A começar pelo encontro deles, nada convencional e que desafia totalmente a nossa visão humana sobre o assunto. Amei como as dúvidas da Violet são tratadas. Elas são legítimas, mas não existe aquela tortura emocional ou dramas desnecessários. Aqui, o foco é a comunicação: se algo não está claro, eles simplesmente sentam e conversam como adultos até chegarem a uma solução sensata. 

"Olhe, eu não sei o quanto isso é inapropriado ou não, mas já passei do ponto de me importar. Eu pretendia te perguntar depois que removesse o anel, esse era o objetivo. Eu... eu não gosto de ficar sem as respostas que preciso, e você é simplesmente... um ponto de interrogação muito intrigante. Eu senti sua falta, sabe? Enquanto esteve ausente."

Apesar do jeitão imponente e do poder aquisitivo, Rourke é zero invasivo. Ele ajuda com o que pode, claro, mas sem nunca apagar a autonomia da Violet. Ele não quer ser o salvador da pátria; ele quer ser o parceiro que dá espaço para ela crescer e escolher o próprio caminho. A autora não atropelou as coisas, pelo contrário, ela fugiu daquele clichê batido do macho alfa provedor que resolve tudo num estalar de dedos.

Como nem tudo são flores, alguns pontos acabaram travando um pouco a minha experiência. O primeiro foi o ritmo, as inserções de cenas no passado começaram tímidas, mas perto do final ficaram tão frequentes que eu perdia o fio da meada do que estava acontecendo no presente. Além disso, senti falta de ver o casal fora do ambiente de trabalho da Violet. Como a trama foca muito no início da relação, ficou difícil decifrar as intenções do Rourke sem um capítulo sob o ponto de vista dele. 

Quanto ao hot, bem... com uma premissa dessas, ele não poderia faltar, né? A escrita é crua, intensa e sem nenhuma economia de detalhes. Confesso que não esperava diálogos tão picantes. Algumas descrições são tão gráficas que tornam impossível esquecer que o Rourke é um minotauro. E aí entra o meu dilema, acho que tenho um bloqueio com minotauros!😅Minha mente insiste em projetar a imagem literal, e nessas horas a química acaba não funcionando para mim como deveria.

"Ele estava sorrindo, ela percebeu. Com aquele sorriso que ela amava, e o brilho em seus olhos era puramente perverso. Ele era um tanto cafajeste, mas ela provavelmente não estaria tão interessada se ele não fosse exatamente assim."

O conflito central não é impulsionado por um vilão clássico. A grande vilã aqui é aquela que enfrentamos todos os dias no espelho: a pressão esmagadora das expectativas. Seja o peso que nós mesmas nos colocamos, ou as cobranças da família e da sociedade, é esse dilema interno que dita o ritmo da obra. É um livro sobre monstros, mas que fala demais sobre a nossa própria humanidade.

Disponível em inglês, Morning Glory Milking Farm é a porta de entrada para a série Cambric Creek, que é dedicada a romances entre humanas e seres de outras espécies. Cada livro traz um casal diferente e uma história independente. Mas, se aceita um conselho, leia na ordem de lançamento. Assim, você vai pegando todos os detalhes desse mundo e se sentindo em casa conforme a vizinhança cresce!

Se você é do time que ama um monster romance com aquele toque de doçura, mas não abre mão de uma boa dose de conversas picantes, prepare o Kindle! Se estiver pronta para se arriscar um pouquinho fora da zona de conforto... parabéns! Acabou de encontrar sua próxima leitura.

"É estranho. Você vê alguém toda semana, conversa com essa pessoa; ela se torna parte da sua rotina, do seu cronograma. Passa a fazer parte da sua vida. Você compartilha um certo nível de intimidade com ela. Sente falta quando ela se ausenta. Você quase consegue se convencer de que a conhece, porque começa a preencher as lacunas por conta própria, mas, na verdade, nunca a conhece de verdade."

Comentários

Postagens mais visitadas