Escudo de Pardais || Devney Perry
Devney Perry estreou na fantasia com o pé direito, entregando tudo o que a gente mais ama: casamento forçado, reinos em conflito, monstros e sangue contaminado.
Sinopse: Invisível. É assim que Odessa vive desde a morte da mãe, observando da penumbra enquanto seu pai se casa novamente e molda sua meia-irmã mais nova, Mae, no Pardal perfeito que selaria a paz com o Reino de Turah. O plano de sua família parece impecável, até que Zavier, o herdeiro dos Turans, destrói as expectativas de todos. Invocando um direito ancestral, ele recusa a noiva preparada e exige Odessa como prêmio.
Com o destino virado do avesso e as malas prontas para uma terra desconhecida, Odessa recebe um choque de realidade ao descobrir que o treinamento de Mae nunca foi sobre diplomacia, mas sobre espionagem. Agora, os segredos sombrios de Turah pesam sobre seus ombros. Como se não bastasse o medo de ser uma espiã improvisada ou a ameaça de monstros corrompidos, ela precisa enfrentar um perigo ainda mais traiçoeiro: o que sente pelo Guardião. Ele é irritante, detém poderes sobrenaturais e insiste em aparecer para salvá-la... o problema é que o coração dela insiste em retribuir.
— Eu te odeio.
— Sim, odeia. Não se esqueça.
Percepções: Após ver tantas indicações de Escudo de Pardais surgir no meu feed, tive que conferir o que estava deixando os leitores gringos obcecados. Quem me conhece sabe que monstros, reinos em conflito e casamentos forçados são meus pontos fracos na ficção, mas essa história trouxe um tempero a mais que eu precisava conferir, que era a presença de magia atrelada a uma contaminação perigosa.
Antes de tudo, imagine um universo onde guerras por território são a regra. Algo comum, não é? Para sobreviver ao caos que se instalava no mundo, surgiu o Escudo de Pardais, um tratado que tenta unir reinos pelo sangue para enfrentar algo muito pior que é a migração de Crux, monstros capazes de dizimar cidades inteiras. Mas a paz tem um preço alto e a cada geração, uma princesa é escolhida e enviada como moeda de troca, selando alianças através de um matrimônio forçado antes que o massacre comece.
Odessa é o coração dessa história e surge como uma figura quase esquecida pelos seus. Deixada de lado após o falecimento da mãe, ela sobrevive sob o comando de uma madrasta que faz de tudo para apagar seu brilho e sua identidade. O problema é que nem mesmo esse isolamento a protege de ser usada como peça política em um casamento arranjado com o general do exército de seu pai. É em meio ao jogo político entre os reinos que Odessa ganha a oportunidade perfeita para mostrar sua força a quem sempre duvidou dela. Nessa trajetória há um belo processo de desconstrução, onde ela aprende que família se constrói na prática e que o respeito e o cuidado independem de qual lugar viemos.
Um dos pontos altos é como as relações são construídas, tanto com os protagonistas quanto com os secundários. Nesta obra, ninguém está em cena apenas para preencher espaço. A autora costurou os personagens secundários na rotina da trama de maneira leve e orgânica, mantendo o fôlego da narrativa. Sejam figuras admiráveis ou detestáveis, todos possuem uma força própria que nos impede de sermos indiferentes à sua presença. Várias reviravoltas me pegaram desprevenida, com decepções que realmente doeram e me deixaram boquiaberta. A autora soube humanizar a trama ao abrir mão da perfeição, criando um enredo que espelha as complexidades da vida real de um jeito cru e impactante.
O romance aqui é para quem gosta de saborear cada etapa. Ele acontece devagar, focando muito mais na essência e na conexão do que na tensão sexual imediata. Tem sim aquelas piadinhas de duplo sentido que a gente adora, mas se você busca esse livro só pelos momentos picantes... sinto dizer, mas vai acabar quebrando a cara. O que brilha aqui é o desdém real entre as nações, que transborda nas provocações dos protagonistas. Ver a confiança sendo construída passo a passo, saindo da tensão para algo genuíno, é o que faz esse enemies to lovers valer cada uma das 512 páginas.
O que parecia ser o início de um triângulo amoroso com a chegada do Guardião termina sendo algo muito mais complexo, que serve de espelho para os dilemas morais da protagonista. Em vez de uma escolha romântica óbvia, ela se vê entre duas forças da natureza: um homem que é calmaria absoluta e outro que é o caos de uma tempestade em alto mar. Dá para sentir a pressão da autora para nos fazer escolher um dos dois. Em certo ponto, quase acreditei que a trama se transformaria em um harém reverso (uma ideia que eu teria abraçado com facilidade se tivesse acontecido, mas não foi o caso).
Falando do Zavier, ele me conquistou com aquele jeito misterioso e sempre educado. As interações dele com a Odessa são magnéticas, e confesso que as cenas em que ela tocava no assunto da 'consumação do casamento' me tiraram alguns sorrisos e um pouquinho de vergonha alheia. Mas, honestamente? O que me prendeu de verdade foram as farpas trocadas entre ela e o Guardião. A química entre os dois é de tirar o fôlego! Ele, com seu sorriso sarcástico e uma língua afiada de dar inveja; ela, lutando contra pensamentos intrusivos hilários sobre as mil e uma formas de eliminá-lo da face da Terra. Ver esses espíritos combativos se transformarem conforme a convivência diária aperta é fascinante. É o tipo de interação eletrizante que não deixa o ritmo da leitura cair nem por um segundo.
"Quando eu não for nada além do que pó e cinzas, Turah perdurará. Não preciso de uma coroa. E fiz as pazes com o meu destino. Mas antes de entrar na minha sepultura, a minha escolha é você."
Na minha visão, a escolha do ponto de vista da Odessa foi um acerto. Por ser em primeira pessoa, o leitor compartilha da mesma cegueira da protagonista já que ela foi protegida da verdade a vida toda. A ida para Turah é um salto no escuro, e o texto respeita isso. As peças desse mundo complexo só começam a se encaixar à medida que as alianças se provam verdadeiras. Nada é apressado; as respostas vêm no tempo certo da confiança, o que torna a jornada muito mais orgânica e crível.
A Odessa é o tipo de personagem que a gente respeita porque ela é real. Ela carrega marcas de abandono e uma falta de confiança em si mesma que dói de ler. Mesmo sendo princesa, foge do clichê da 'escolhida'. Ela é uma garota comum, sem talentos extraordinários para luta ou espionagem (inclusive, ela é péssima nisso). Mas é justamente essa consciência de suas limitações que torna a mudança tão brilhante. Ver aquela fagulha de oposição nascer em alguém que sempre aceitou o destino imposto pelos outros foi uma surpresa grata. Em Turah, longe da bolha protetora de Quentis, ela finalmente para de esperar o resgate e começa a lutar pela própria independência. É o desabrochar de uma mulher que aprendeu que precisa ser seu próprio escudo.
Minha estreia com a escrita da Perry não poderia ter sido mais marcante! Já conhecia a fama dela nos romances contemporâneos, mas ver como ela se saiu em seu primeiro mergulho na fantasia foi uma surpresa incrível. A autora construiu um mundo descomplicado, crível e extremamente visual; a jornada da Odessa é tão detalhada que você consegue sentir o cheiro das florestas e o perigo que os monstros representam. É impossível ficar entediado aqui! Entre oceanos, cavalgadas e cidades suspensas em árvores, o ritmo é perfeito. Sempre há algo novo acontecendo e os mistérios que cercam a história te prendem do início ao fim.
Sabe aquela sensação de ver um quebra-cabeça sendo montado na sua frente? Foi assim que me senti. O equilíbrio entre o romance e os mistérios acerca dos monstros e da localização da capital de Turah é satisfatório demais. Amei como Perry não desperdiçou nenhum detalhe e tudo o que foi apresentado lá atrás ganhou importância no final. As reviravoltas aconteceram no timing perfeito, levando a um desfecho que é um verdadeiro soco no estômago (do melhor jeito possível).
Veja, eu estava gostando muito da história, mas não entendia o surto coletivo... até chegar literalmente nas últimas páginas de um capítulo narrado por outro personagem. QUE REVIRAVOLTA! Você não vai ver o que está chegando, vai por mim!
Minha recomendação é que você mergulhe nessa leitura o quanto antes, porque é só questão de tempo até os spoilers começarem a aparecer por aí. Como sempre, fiz questão de trazer uma resenha limpa para não estragar sua experiência. Se você ama uma romantasia envolta em mistério, corra para ler esta obra. Escudo de Pardais desembarca agora em março pela Editora Paralela e eu já estou contando os minutos (e surtando) pelo segundo volume, que inclusive sai agora em abril lá fora.
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